27/06/2026
Autoria
Lilianna Bernartt
Tempo de Leitura
4 min
Categorias
A Segunda Guerra Mundial costuma ser lembrada pelas grandes batalhas, pelos campos de concentração e pelos líderes que marcaram um dos períodos mais sombrios da história. Em Uma Infância Alemã (Amrum), exibido na Seleção Oficial do Festival de Cannes de 2025, Fatih Akin faz o movimento inverso. Em vez de acompanhar os acontecimentos que transformaram o mundo, o diretor volta seu olhar para uma pequena ilha no norte da Alemanha e para um menino que tenta compreender um país que desmorona diante dos seus olhos.
Baseado nas memórias de infância do cineasta e dramaturgo Hark Bohm — que escreveu o roteiro ao lado de Akin antes de falecer, em 2025 —, o filme acompanha Nanning, um garoto criado sob os valores do regime nazista. Seu pai está na guerra, sua mãe é uma admiradora fervorosa de Hitler e o cotidiano da família ainda preserva a crença de que o Führer conduz a Alemanha pelo caminho correto. Mas a chegada de refugiados, a fome crescente, a derrota iminente do exército alemão e as reações dos moradores da ilha começam a colocar em xeque tudo aquilo que ele aprendeu desde a infância.
O grande mérito de Uma Infância Alemã está justamente na escolha desse ponto de vista. Fatih Akin não constrói um filme sobre o nazismo em si, mas sobre o impacto que uma ideologia exerce na formação de uma criança. Nanning não é um garoto que precisa apenas amadurecer. Ele precisa reconstruir a própria percepção do mundo a partir da descoberta de que aqueles em quem mais confiava podem estar profundamente equivocados.
Essa é uma ruptura muito mais dolorosa do que a simples perda da inocência.
O filme entende que uma infância também pode ser destruída por uma herança moral. Antes de existir pensamento crítico, existe aquilo que aprendemos dentro de casa. Quando essa estrutura começa a ruir, o conflito deixa de ser apenas histórico e passa a ser íntimo. O horror não nasce das bombas que caem à distância, mas do instante em que um menino percebe que a verdade ensinada pelos pais talvez nunca tenha sido verdade.
A fotografia de Karl Walter Lindenlaub acompanha essa proposta de maneira bastante particular. Em vez de recorrer à escuridão ou à estética devastada normalmente associada aos filmes sobre a Segunda Guerra, a câmera encontra beleza constante nas praias, nas dunas e na luz natural da ilha de Amrum. Os enquadramentos valorizam a paisagem, os horizontes abertos e a serenidade daquele espaço quase isolado do restante do país.
Essa decisão produz um contraste interessante entre forma e conteúdo. Enquanto a guerra avança, a natureza permanece bela e indiferente. A infância de Nanning ainda é capaz de enxergar encanto naquele lugar, mesmo quando sua realidade começa a desmoronar. A fotografia traduz esse desencontro entre a percepção infantil e a dimensão histórica dos acontecimentos.
Ao mesmo tempo, essa opção estética também limita parte da força dramática do filme. Em alguns momentos, a beleza visual parece suavizar excessivamente o peso da fome, do medo e da violência que atravessam aquela comunidade. O desconforto moral vivido pelo protagonista nem sempre encontra correspondência na encenação, que preserva uma atmosfera quase idílica mesmo quando a narrativa exige maior tensão.
Essa delicadeza excessiva aparece também em algumas soluções de roteiro. Certos acontecimentos aproximam o amadurecimento de Nanning de uma trajetória heroica bastante convencional, diminuindo a complexidade que o restante da narrativa constrói com tanto cuidado. Ainda assim, o filme nunca perde de vista seu principal interesse: compreender como uma criança atravessa o fim de um regime político sem sequer possuir repertório para entender o que está acontecendo.
É justamente aí que Uma Infância Alemã encontra sua identidade. Fatih Akin não procura reconstituir a guerra nem revisitar seus episódios mais conhecidos. Seu interesse está nas cicatrizes invisíveis, naquilo que permanece depois que os discursos entram em colapso. Porque o fim de uma guerra também pode começar dentro de uma casa, quando um filho descobre que seus pais não eram os heróis que imaginava.
Confira o trailer:
APENAS COISAS BOAS (2026)
Há filmes que contam uma história de amor. Outros utilizam o amor como ponto de partida para investigar algo maior. Em Apenas Coisas Boas, Daniel Nolasco parece menos interessado na trajetória de um casal do que na possibilidade de reinventar imagens que o cinema, durante décadas, ajudou a cristalizar.
SUPERGIRL
A trajetória recente da DC parece finalmente compreender algo que durante muito tempo faltou aos seus heróis: humanidade. Durante décadas, seus personagens foram frequentemente apresentados como figuras quase inalcançáveis, símbolos morais tão absolutos que pouco espaço restava para dúvidas, fragilidades ou contradições. Supergirl surge justamente como uma tentativa de romper com essa tradição.
ENTRE O SUCESSO E A LAMA – Dir. Cristiano Burlan
Filme de Cristiano Burlan transforma resistência cultural em cinema