APENAS COISAS BOAS (2026)

27/06/2026

APENAS COISAS BOAS (2026)

Autoria

Lilianna Bernartt

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6 min

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Há filmes que contam uma história de amor. Outros utilizam o amor como ponto de partida para investigar algo maior. Em Apenas Coisas Boas, Daniel Nolasco parece menos interessado na trajetória de um casal do que na possibilidade de reinventar imagens que o cinema, durante décadas, ajudou a cristalizar.

Apenas Coisas Boas encontra no corpo uma nova linguagem para a masculinidade

Partindo do encontro entre Antônio (Lucas Drummond), um fazendeiro que vive sozinho no interior de Goiás, e Marcelo (Liev Carlos) um motociclista ferido que surge inesperadamente em sua propriedade, o diretor constrói um universo em que o desejo não é apenas tema, mas linguagem. É através dos corpos, da paisagem e dos silêncios que o filme organiza sua dramaturgia.

Logo nos primeiros minutos, percebe-se que Nolasco não pretende realizar um retrato naturalista daquele universo rural. Embora o filme dialogue com referências muito concretas — o campo, o trabalho, o imaginário do cowboy, a virilidade associada ao homem do interior — existe uma dimensão quase onírica atravessando toda a narrativa. A realidade permanece reconhecível, mas nunca completamente presa às suas próprias regras. O cotidiano parece constantemente suspenso por uma atmosfera de sonho, como se acompanhássemos menos acontecimentos objetivos do que lembranças, desejos ou projeções afetivas.

Essa escolha encontra sua maior força na fotografia de Larry Machado. Há uma tensão permanente entre duas escalas. De um lado, enquadramentos amplos revelam a vastidão da paisagem goiana e a solidão daqueles personagens diante daquele mundo aparentemente infinito. De outro, a câmera se aproxima da pele, dos gestos e dos olhares com uma intimidade quase tátil. A paisagem amplia os personagens; a câmera devolve o espectador à materialidade dos corpos.

Essa aproximação nunca soa gratuita. Ao contrário: ela faz parte da própria construção do desejo. O filme parece compreender que amar alguém é, antes de tudo, aprender a olhar esse corpo. Os zooms, pouco frequentes no cinema contemporâneo, ganham aqui uma função narrativa delicada, aproximando o espectador daquilo que desperta curiosidade, afeto e atração. O desejo deixa de ser apenas representado para contaminar a própria linguagem cinematográfica.

Essa corporeidade é um dos aspectos mais interessantes de Apenas Coisas Boas. Os personagens falam pouco. O afeto nasce muito antes das palavras, nos gestos cotidianos, na forma como dividem um espaço, compartilham uma refeição ou simplesmente permanecem juntos em silêncio. O corpo deixa de ser objeto para se tornar discurso.

Não por acaso, o sexo ocupa um lugar central na narrativa de forma corajosa. Em vez de transformar as cenas íntimas em espetáculo ou instrumento de provocação, Daniel Nolasco lhes devolve algo frequentemente ausente no audiovisual: naturalidade.

O sexo aparece como continuidade do afeto. Um beijo, abraço, uma conversa interrompida ou um encontro sexual recebem exatamente o mesmo tratamento visual. Não existe hierarquia entre essas manifestações de intimidade. Há apenas duas pessoas que se desejam. Ao filmar essas cenas com delicadeza e frontalidade, o diretor também desmonta uma tradição que frequentemente tratou o corpo LGBTQIAPN+ como objeto de censura ou exotização.

Esse gesto dialoga diretamente com o cinema queer contemporâneo. Mas Nolasco parece interessado em ir além da representação. Seu cinema não reivindica apenas o direito de mostrar corpos dissidentes; ele procura reinventar os próprios códigos cinematográficos que sempre estiveram associados à masculinidade.

O faroeste talvez seja o exemplo mais evidente. Chapéus, couro, cavalos, trabalho braçal, músculos e isolamento permanecem presentes, mas deixam de funcionar como símbolos de dureza ou domínio. A virilidade cede espaço à vulnerabilidade. O cuidado substitui a violência como forma de relação. O desejo passa a reorganizar um imaginário que, historicamente, pertenceu quase exclusivamente ao masculino heteronormativo.

É justamente quando essa experiência sensorial parece plenamente consolidada que o filme decide romper consigo mesmo.

A segunda metade assume outra temporalidade, outro ritmo e outra lógica narrativa. O romance contemplativo dá lugar a uma estrutura mais próxima do suspense psicológico, reorganizando completamente a experiência do espectador. A mudança é ousada e coerente com a proposta de um filme interessado na instabilidade da memória e dos afetos. Afinal, o amor raramente permanece igual quando atravessado pelo tempo.

Ao mesmo tempo, essa guinada revela algumas irregularidades. A narrativa passa a depender mais da investigação do que da atmosfera cuidadosamente construída até então. O mistério introduz novas camadas dramáticas, mas nem sempre encontra a mesma organicidade da primeira parte. Enquanto antes eram os corpos que sustentavam o filme, agora o roteiro assume maior protagonismo — e suas costuras tornam-se mais visíveis.

Ainda assim, essa quebra também complementa de forma interessante a experiência proposta por Nolasco. O filme deixa de acompanhar um amor vivido para refletir sobre aquilo que resta dele. O corpo, antes pleno de presença, transforma-se em lembrança. O desejo dá lugar à ausência. O horizonte rural, cheio de possibilidades dá lugar à verticalização concreta da metrópole. O espaço antes compartilhado passa a ser habitado pela memória.

É nesse movimento que Apenas Coisas Boas encontra sua dimensão mais bonita. Mais do que falar sobre um romance entre dois homens, Daniel Nolasco investiga como os afetos sobrevivem ao tempo e como o cinema pode transformar essa permanência em imagem.

Ao colocar a corporeidade masculina no centro da narrativa, ressignificar símbolos tradicionalmente ligados à virilidade e tratar o sexo como extensão natural do amor, o diretor amplia as possibilidades do cinema queer brasileiro sem abrir mão da experimentação formal.

E são justamente filmes que se permitem correr riscos que costumam permanecer na memória. E Apenas Coisas Boas permanece porque compreende que existem histórias que não podem ser contadas apenas pelas palavras. Algumas só podem ser filmadas através da pele, da paisagem e do silêncio.

Confira a entrevista que fizemos com o cineasta Daniel Nolasco e elenco:

Confira o trailer:

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