A Odisseia de Nolan: um espetáculo monumental à procura de uma alma

15/07/2026

A Odisseia de Nolan: um espetáculo monumental à procura de uma alma

Autoria

Lilianna Bernartt

Tempo de Leitura

7 min

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Adaptar A Odisseia talvez seja um dos maiores desafios que um cineasta possa assumir. Não apenas porque Homero escreveu um dos textos fundadores da literatura ocidental, mas porque sua obra parece resistir à própria ideia de adaptação. Ao longo de quase três mil anos, a jornada de Odisseu atravessou culturas, religiões e linguagens sem nunca perder sua força. Isso acontece porque A Odisseia nunca foi realmente sobre monstros, deuses ou criaturas fantásticas. O mito sempre foi apenas a linguagem escolhida por Homero para falar daquilo que existe de mais profundamente humano: culpa, desejo, orgulho, tempo, perda e identidade. No fundo, sua epopeia é a história de um homem tentando voltar para casa — e, principalmente, tentando voltar para si mesmo.

Christopher Nolan compreende isso.

Sua Odisseia está muito menos interessada no mito do que no homem que existe por trás dele.

Essa escolha não surge por acaso. Ela atravessa praticamente toda a filmografia do diretor. Desde Amnésia, Nolan parece fascinado por personagens que tentam reorganizar a própria identidade depois de uma ruptura irreversível. Em A Origem, essa ruptura nasce da culpa; em Interestelar, da distância; em Oppenheimer, da responsabilidade histórica. Agora, em A Odisseia, ela assume a forma do retorno. Odisseu vence a Guerra de Troia, mas descobre que voltar para casa não significa voltar a ser quem era.

Ao deslocar o centro da narrativa para essa dimensão humana, Nolan inevitavelmente reduz o espaço ocupado pelo imaginário. A mitologia deixa de existir como um universo próprio para se tornar quase um instrumento dramático. O filme não elimina o fantástico — ele continua presente —mas numa tentativa constante de reconfigurar ele para o terreno do concreto.

Essa escolha vai de encontro com o próprio processo de produção do filme. Nolan construiu cenários reais, embarcações reais, filmou em locações, evita efeitos digitais sempre que possível e insiste na película como suporte da experiência cinematográfica.

Inclusive, no que diz respeito a experiência cinematográfica, A Odisseia leva essa ao limite.

Filmado integralmente em IMAX 70 milímetros, o filme transforma escala em linguagem. O mar parece infinito, as embarcações possuem peso, a madeira, a pedra, o vento e a água deixam de ser simples cenários para se tornarem matéria dramática. Nolan filma como quem deseja convencer o espectador de que aquele mundo existiu de verdade.

E consegue.

Poucos cineastas compreendem a dimensão espacial do cinema com tamanha precisão. A fotografia e o desenho de som  impressionam. A maneira como os corpos ocupam o quadro impressiona. Não se trata apenas de um espetáculo visual, mas de um filme que devolve ao cinema uma experiência física.

Justamente por isso A Odisseia encontra sua forma mais poderosa numa sala IMAX. Não como um luxo tecnológico, mas porque o formato amplia exatamente aquilo que Nolan procura construir: a sensação de ocupar aquele espaço ao lado de Odisseu.

Entretanto, essa mesma busca pela concretude produz um efeito curioso.

Quanto mais concreto esse universo se torna, menos espaço parece restar para o mistério.

Os momentos dedicados à dimensão mitológica da narrativa raramente alcançam a mesma potência do restante do filme. Não por falta de recursos, mas porque parecem presos à necessidade de organizar racionalmente aquilo que, em Homero, sempre pertenceu ao território do inexplicável.

Há, porém, uma exceção luminosa: Circe.

Interpretada por Samantha Morton, a personagem rompe essa lógica. Sua presença carrega ambiguidade, fascínio e mistério. Pela primeira vez, Nolan parece aceitar que nem tudo precisa ser explicado ou controlado. É uma sequência que finalmente permite ao imaginário respirar e, justamente por isso, figura entre os momentos mais memoráveis do filme.

Mas a maior fragilidade de A Odisseia talvez esteja justamente naquilo que constitui o coração da obra de Homero: a complexidade das relações humanas.

Ao escolher retirar o foco do mito para encontrar o homem por trás dele, Nolan se compromete tanto a concretizar as etapas da jornada de Odisseu que acaba fragilizando aquilo que dá sentido a essa travessia: a construção dos vínculos.

Penélope permanece muito mais como uma ideia do que como uma presença. Telêmaco representa mais o objetivo do retorno do que um filho que passou a vida inteira esperando um pai que nunca conheceu. Até os companheiros de viagem atravessam a narrativa sem que o filme estabeleça entre eles relações capazes de produzir verdadeiro peso dramático.

A presença de Lupita Nyong’o também reforça essa sensação. Sua personagen acaba limitada pela própria estrutura da narrativa, cumprindo uma função importante dentro da jornada de Odisseu, mas sem que o filme lhe conceda tempo ou profundidade suficientes para que se torne uma presença emocionalmente marcante. E isso é sintomático da maneira como Nolan constrói grande parte de suas relações: elas servem ao percurso do herói, mas raramente existem para além dele.

As personagens cumprem perfeitamente sua função simbólica dentro da narrativa, mas nunca deixam de ser símbolos para se tornarem pessoas. E isso inevitavelmente enfraquece a conexão emocional com o próprio Odisseu.

A gente compreende seus conflitos, entende o peso da sua jornada e a importância do seu retorno. Mas a narrativa convida muito mais à contemplação do que ao envolvimento. Existe uma diferença enorme entre entender por que um homem deseja voltar para casa e sentir, junto com ele, a urgência desse retorno.

Quando os grandes acontecimentos finalmente chegam, chegam dotados de significado dramático, mas não encontram a mesma ressonância emocional, porque, no fim das contas, a força de A Odisseia nunca esteve apenas no ato do retorno, mas naquilo que faz esse retorno importar.

Ainda assim, é impossível reduzir A Odisseia às suas limitações.

Christopher Nolan continua sendo um dos poucos cineastas contemporâneos capazes de pensar forma e conteúdo como uma única experiência. Mesmo quando suas escolhas dividem, raramente são arbitrárias. Existe sempre uma ideia sustentando cada enquadramento, movimento de câmera e decisão formal.

Sua adaptação talvez não capture plenamente a intimidade, o mistério e a humanidade que fizeram o poema de Homero atravessar quase três mil anos, mas reafirma algo importante no cinema contemporâneo: a crença de que a linguagem importa, que uma imagem pode carregar peso, que o espaço pode contar uma história e que a experiência de assistir a um filme continua sendo muito diferente da simples experiência de consumi-lo.

Num momento em que blockbusters parecem concebidos em massa para sobreviver em qualquer tela, A Odisseia reafirma a importância de filmes serem vividos no escuro de uma sala de cinema.

De preferência, neste caso, numa tela IMAX.

Confira a crítica em vídeo:

Confira o trailer:

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