07/07/2026
Autoria
Lilianna Bernartt
Tempo de Leitura
4 min
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A memória nunca é apenas um exercício de recordação. Ela também é um campo de disputa. O que uma sociedade decide preservar, esquecer ou relativizar determina não apenas a forma como ela compreende o passado, mas também as escolhas que fará no futuro. **Anatomia do Caos**, novo documentário de Dandara Ferreira, parte dessa compreensão ao transformar os bastidores da CPI da Covid em um registro sobre um dos períodos mais decisivos da história recente do Brasil.
A pandemia da Covid-19 alterou definitivamente a história do país. Foram mais de 700 mil vidas perdidas, uma crise sanitária atravessada pelo negacionismo, pela desinformação e por decisões políticas que ainda hoje repercutem na sociedade brasileira. Em vez de reconstruir esse período pela experiência íntima das vítimas ou por um relato cronológico da tragédia, Dandara desloca seu olhar para o espaço onde a memória institucional começou a ser construída. A CPI da Covid deixa de funcionar apenas como uma investigação parlamentar para se tornar o lugar onde um país tentou organizar os fatos, confrontar versões e produzir um registro oficial de um dos momentos mais traumáticos de sua democracia.
Essa escolha define o filme. Anatomia do Caos não procura revelar um grande segredo nem revisitar acontecimentos desconhecidos. Os fatos são amplamente documentados. O interesse da diretora está em outra direção: impedir que eles sejam absorvidos pelo esquecimento. Em um Brasil que frequentemente atravessa seus grandes traumas sem enfrentá-los plenamente, preservar a memória torna-se um gesto político. O documentário compreende que o tempo não apenas distancia os acontecimentos; ele também reorganiza responsabilidades, suaviza discursos e abre espaço para que diferentes narrativas disputem o significado do passado.
Ao reunir imagens de arquivo, registros da CPI, documentos e depoimentos, Dandara constrói uma narrativa que confia na força do próprio material histórico. Não há a necessidade de conduzir emocionalmente o espectador ou de dramatizar acontecimentos cuja gravidade já está inscrita nas imagens. A montagem privilegia o registro e permite que as contradições sejam provenientes da sucessão dos próprios fatos. É uma escolha coerente com a proposta da diretora, que entende o documentário, antes de tudo, como instrumento de preservação.
Existe uma tradição importante do cinema documental brasileiro que compreende a câmera como ferramenta de memória pública. Anatomia do Caos dialoga diretamente com essa herança. Registrar, nesse contexto, não significa apenas filmar. Significa produzir um arquivo capaz de sobreviver ao desgaste do tempo e às tentativas de reescrever a história. Cada depoimento, cada documento e cada bastidor registrados pelo filme deixam de funcionar apenas como informação para adquirir valor de testemunho.
Essa dimensão ganha ainda mais força porque o documentário chega aos cinemas em um momento em que o Brasil volta a discutir seus rumos políticos. A memória nunca é neutra. Ela também participa da democracia. A forma como uma sociedade recorda suas crises influencia diretamente sua capacidade de reconhecer responsabilidades, proteger instituições e compreender as consequências de suas escolhas. O filme de Dandara Ferreira se insere justamente nesse debate ao reafirmar que lembrar também é uma forma de justiça.
Do ponto de vista cinematográfico, a diretora opta por uma linguagem sóbria, concentrada na potência dos registros documentais. A narrativa evita excessos formais e encontra sua força na articulação entre imagens, documentos e bastidores da investigação parlamentar. Essa opção pode parecer discreta, mas revela um entendimento preciso do próprio objeto. Quando o material histórico possui tamanho peso político e humano, a linguagem não precisa competir com ele, mas sim, organizá-lo.
Mais do que um documentário sobre a pandemia, Anatomia do Caos é um filme sobre a responsabilidade de preservar a memória quando o esquecimento se torna confortável. Dandara Ferreira reafirma uma das funções mais importantes do cinema documental: impedir que acontecimentos decisivos desapareçam antes mesmo de serem plenamente compreendidos. Em um país que tantas vezes transforma seus grandes traumas em capítulos inacabados da própria história, seu filme lembra que preservar a memória não é permanecer preso ao passado. É garantir que o futuro não seja construído sobre o apagamento dele.
Confira a entrevista que fizemos com a cineasta Dandara Ferreira:
Confira o trailer:
Pão Doce: quando trabalhar significa não ter tempo para viver
No 54º Festival de Cinema de Gramado, Pão Doce conquistou dois Kikitos: Melhor Direção, para Wesley Guimarães, e Melhor Ator, para Francisco Gaspar. Os prêmios chamam atenção para um curta que parte de uma questão extremamente contemporânea e urgente, mas ainda pouco explorada pela ficção brasileira: os impactos da escala 6×1 na vida de quem trabalha sob uma lógica que parece deixar cada vez menos espaço para simplesmente viver.
FEITO PIPA, de Allan Deberton
Quando acompanhei Feito Pipa em sua estreia internacional, no Festival de Berlim, havia algo muito bonito em perceber, já naquele primeiro encontro com o público, como uma história tão profundamente brasileira conseguia atravessar fronteiras sem precisar diluir nenhuma de suas particularidades. O Ceará, a casa colorida de Dilma, o futebol, as relações familiares, os gestos de Gugu: tudo permanecia profundamente localizado e, ainda assim, imediatamente reconhecível. Agora, em sua estreia nacional durante o 54º Festival de Cinema de Gramado, uma nova camada se revela: se em Berlim ficou claro o quanto nossas histórias conseguem se comunicar universalmente, aqui se torna ainda mais evidente o calor da identificação quando o público brasileiro se vê na tela, reconhecendo pessoas, afetos, contradições e violências que fazem parte de sua própria experiência.
ANTÁRTIDA, de Bruno Safadi
Existe uma contradição interessante no centro de Antártida. O novo filme de Bruno Safadi se vale de uma das mais sofisticadas experiências de produção virtual já realizadas no audiovisual brasileiro para tratar de uma violência antiga, estrutural e ainda frequentemente confinada ao espaço íntimo. Ao colocar seus personagens isolados em uma estação de pesquisa cercada pelo gelo, o filme encontra um microcosmo potente para discutir violência contra a mulher, relações de gênero, poder e a necessidade de transformar uma questão individual em responsabilidade coletiva. Mas, diante da urgência do que deseja comunicar, Antártida parece não confiar inteiramente na capacidade do cinema de fazê-lo sem explicar suas próprias intenções. O resultado é um filme tecnicamente ambicioso e tematicamente necessário, mas atravessado por uma dramaturgia irregular, arcos pouco desenvolvidos e uma vocação pedagógica que, ao mesmo tempo em que amplia seu alcance, frequentemente reduz sua complexidade.