24/06/2026
Autoria
Lilianna Bernartt
Tempo de Leitura
5 min
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A trajetória recente da DC parece finalmente compreender algo que durante muito tempo faltou aos seus heróis: humanidade. Durante décadas, seus personagens foram frequentemente apresentados como figuras quase inalcançáveis, símbolos morais tão absolutos que pouco espaço restava para dúvidas, fragilidades ou contradições. Supergirl surge justamente como uma tentativa de romper com essa tradição.
Antes de ser uma aventura espacial ou uma história sobre salvar o universo, o filme procura entender quem é Kara Zor-El quando ela já não consegue se apoiar em nenhuma certeza. E encontra seus momentos mais interessantes justamente aí.
O que diz respeito à Krypto funciona como um dos grandes acertos da narrativa. O perigo que cerca o personagem não serve apenas como motor da trama, mas como uma ferramenta para revelar aspectos fundamentais da protagonista. É complexa e profundamente humana a maneira como Kara reage à possibilidade de perder alguém que ama. Quando tudo aquilo que restou do seu mundo parece novamente escapar de suas mãos, ela é obrigada a confrontar não apenas a dor da perda, mas também a própria dificuldade de encontrar um lugar ao qual pertença.
Porque, no fundo, Supergirl é uma personagem marcada pelo deslocamento.
Diferente de Superman, que encontrou na Terra um lar, uma identidade e um propósito, Kara permanece presa à condição de estrangeira. Ela não está em busca de si mesma, mas de um lugar onde possa existir. Há uma diferença importante entre essas duas jornadas. Kara sabe exatamente quem é. O problema é que tudo aquilo que a definia deixou de existir. Krypton não é mais uma possibilidade de retorno e a Terra tampouco se apresenta como uma casa natural. O filme encontra força justamente nessa sensação de desenraizamento permanente, transformando sua protagonista em alguém que parece estar sempre de passagem, incapaz de se reconhecer completamente em qualquer lugar.
Essa dimensão emocional se torna ainda mais interessante porque o longa compreende algo que muitas histórias sobre perda costumam ignorar: o luto não produz apenas tristeza.
Ele produz raiva, impulsividade, ressentimento, irritação e uma profunda dificuldade de confiar no mundo. A Kara lindamente interpretada por Milly Alcock carrega esses sentimentos sem que eles comprometam sua integridade moral. Ela continua sendo uma personagem essencialmente boa, mas sua bondade já não nasce da ingenuidade. Surge da experiência. Há uma lucidez amarga em seu olhar, como se a personagem tivesse visto demais para acreditar em respostas simples.
Ainda que o filme preserve a ideia clássica de que a bondade deve prevalecer, existe aqui uma sobriedade que diferencia essa abordagem daquela vista em Superman. O famoso “seja bom” continua presente, mas agora atravessado pela dor, dúvida e cicatrizes. A bondade deixa de ser uma característica automática e passa a ser uma escolha consciente.
Diante disso, a presença de Superman provoca certo desconforto. O personagem continua ocupando o lugar da referência moral absoluta, do herói que vê o melhor nas pessoas e que parece ter encontrado todas as respostas. Em diversos momentos, funciona como tutor, bússola ética e até termômetro emocional de Kara. Embora essa dinâmica ajude a evidenciar as diferenças entre os dois personagens, ela também reduz um pouco a autonomia da protagonista, como se sua maturidade ainda precisasse ser validada por alguém que já alcançou uma espécie de perfeição inalcançável, sem mencionar a intrínseca relação de machismo que se apresenta, na figura do homem sábio.
Se a presença de Superman causa estranhamento, a de Jason Momoa (Lobo) aparece como um importante aliado. Seu Lobo injeta energia, irreverência e humor à narrativa, funcionando como contraponto à melancolia que acompanha Kara durante boa parte da jornada. Em alguns momentos, porém, o humor extrapola a medida e contribui para uma sensação de desequilíbrio tonal que atravessa o filme.
A direção é irregular e frequentemente oscila entre registros muito distintos. Há momentos de forte carga dramática que logo são interrompidos por cenas de humor ou sequências de ação que parecem pertencer a outra obra. Essa instabilidade impede que determinadas passagens alcancem todo o impacto emocional que poderiam.
O mesmo acontece com a construção da ameaça principal. O vilão e seus aliados raramente conseguem se estabelecer como um perigo real para a protagonista. A única ameaça verdadeiramente palpável está relacionada a Krypto, já que o antagonista possui aquilo que Kara precisa para salvá-lo. Fora isso, a sensação recorrente é que basta a heroína decidir agir para que o conflito seja resolvido. Falta peso, urgência, percepção de que existe algo realmente capaz de confrontá-la.
Mas talvez isso aconteça porque o filme nunca esteve verdadeiramente interessado no vilão.
Interessante acompanhar as camadas apresentadas de Supergirl como estudo de personagem. O conflito externo movimenta a narrativa, mas é o conflito interno que realmente importa. Quando a obra se concentra na aventura espacial, ela oscila. Quando retorna à solidão, ao luto e ao desejo de pertencimento de Kara, encontra seus momentos mais fortes.
Por isso, apesar de suas inconsistências, de ser um primeiro filme bem oscilante, ainda assim, Supergirl desperta interesse genuíno por sua protagonista. O filme tropeça em algumas escolhas, se contradiz em outras e nem sempre encontra equilíbrio entre emoção, humor e espetáculo. Mas ao permitir que Kara seja imperfeita, contraditória, impulsiva e emocionalmente complexa, a DC finalmente encontra um caminho mais interessante para seus heróis e heroínas. Ainda há muito o que ser feito, mas há um direcionamento que pode ser muito interessante, se bem trabalhado, porque, porque, por fim, a força de Supergirl não está só em seus poderes.
Confira o trailer: