TOY STORY 5 (2026)

17/06/2026

TOY STORY 5 (2026)

Autoria

Lilianna Bernartt

Tempo de Leitura

5 min

Categorias

Crítica, Filmes (+)

A continuação que não pedimos, mas que precisávamos

O que sempre diferenciou Toy Story de outras franquias animadas é que seus filmes nunca falaram realmente sobre brinquedos. Falaram sobre aquilo que os brinquedos representam: pertencimento, afeto, passagem do tempo e, sobretudo, a inevitabilidade da perda. Se Toy Story 3 era um filme sobre crescer e deixar ir, e Toy Story 4 sobre encontrar um novo propósito depois do fim, Toy Story 5 desloca a questão para uma angústia profundamente contemporânea: o que acontece quando a própria ideia de brincar parece estar desaparecendo?

Toy Story 5 não tenta competir com os encerramentos anteriores. Pelo contrário. O filme parece compreender que não há como repetir a despedida de Andy ou a separação entre Woody e Buzz. Em vez de repetir a fórmula da franquia, o filme desloca seu centro de gravidade. Woody e Buzz continuam presentes, mas já não são os protagonistas absolutos da narrativa. O coração deste filme pertence a Jessie.

Há algo particularmente inteligente nessa escolha. Desde sua introdução em Toy Story 2, Jessie sempre foi a personagem que carregava a cicatriz mais profunda da série: o trauma do abandono. Enquanto Woody costumava refletir sobre propósito e Buzz sobre identidade, Jessie sempre esteve ligada ao medo de ser esquecida. Toy Story 5 finalmente transforma essa dor em ação dramática. Seu desejo de proteger Bonnie não nasce apenas de um senso de dever, mas de alguém que conhece intimamente as consequências de deixar uma criança se afastar do universo da imaginação.

É justamente Bonnie que permite ao filme encontrar novos caminhos. Durante anos, os humanos em Toy Story funcionaram quase como motores narrativos para os conflitos dos brinquedos. Aqui acontece o contrário. Pela primeira vez, a criança ocupa efetivamente o centro da história. Bonnie não é apenas a dona dos brinquedos; ela é uma menina que enfrenta dificuldades para se conectar com outras crianças e encontra no tablet Lilypad uma solução aparentemente perfeita para esse problema.

O conflito do filme nasce desse deslocamento. Não entre brinquedos e tecnologia, mas entre diferentes formas de construir relações.

Essa talvez seja a maior qualidade do roteiro. Seria fácil reduzir a narrativa em um discurso nostálgico contra as telas, numa espécie de “antigamente era melhor”. Felizmente, Toy Story 5 evita essa armadilha. A tecnologia não aparece como vilã. O Lilypad não é um monstro a ser derrotado, mas uma ferramenta que oferece respostas rápidas para necessidades reais. O problema surge quando a conexão digital passa a substituir completamente a experiência concreta do encontro.

Nesse sentido, o filme toca numa questão extremamente atual. As telas não são apenas dispositivos tecnológicos; elas reorganizam a maneira como crianças percebem o tempo, a atenção e a convivência. Ao colocar esse debate no centro da narrativa, Toy Story 5 atualiza uma franquia criada há mais de trinta anos sem perder sua essência.

Se o primeiro filme discutia o medo de ser substituído por um brinquedo mais moderno, o quinto amplia essa pergunta: e se os brinquedos estiverem sendo substituídos pela própria lógica digital? É uma evolução natural do tema, que acompanha as transformações culturais de cada geração.

O mais interessante é que a Pixar compreende que a questão não é preservar brinquedos, mas preservar a imaginação. O filme entende que brincar nunca foi apenas uma atividade infantil. É um exercício de invenção do mundo. Quando uma criança cria histórias, atribui vozes a objetos ou transforma o chão da sala em um universo inteiro, ela está experimentando formas de interpretar a realidade. Toy Story 5 defende esse espaço imaginativo não por saudosismo, mas porque reconhece seu valor humano.

Formalmente, o filme mantém a impressionante capacidade da franquia de equilibrar aventura, humor e emoção. Novos personagens tecnológicos entram em cena sem parecer meros acessórios narrativos, enquanto o retorno de Woody e Buzz produz uma sensação de reencontro que dialoga diretamente com o público que cresceu ao lado deles. Há algo melancólico na maneira como esses personagens aparecem: menos como heróis de uma nova jornada e mais como velhos amigos que continuam fazendo parte de nossa vida mesmo quando deixamos de vê-los todos os dias.

Mas talvez o aspecto mais emocionante de Toy Story 5 seja perceber que, depois de cinco filmes, a franquia continua falando sobre a mesma coisa. Sobre o medo de ser deixado para trás. Sobre a necessidade de encontrar nosso lugar quando o mundo muda. Sobre aceitar que crescer implica perder algumas coisas e descobrir outras.

Dentro disso, Toy Story 5 acrescenta uma camada nova a essa reflexão: a de que nem toda transformação precisa significar substituição. Brinquedos e tecnologia podem coexistir. O virtual não precisa eliminar o real. O filme sugere que a questão nunca foi escolher entre um tablet ou um boneco, mas lembrar que nenhuma interface será capaz de substituir completamente a experiência de estar junto.

Trinta anos depois, a grande força de Toy Story continua sendo sua capacidade de falar com crianças sobre o presente e com adultos sobre o tempo. E poucos filmes recentes conseguem fazer isso com tanta delicadeza. Toy Story 5 talvez não seja o encerramento definitivo da franquia. Mas entende algo fundamental: enquanto existir alguém tentando encontrar uma forma de se conectar ao outro, haverá uma história para contar. E, como sempre aconteceu nessa série, ela começa brincando para terminar falando da vida.

Se o anúncio de Toy Story 5 talvez tenha sido recebido com certa desconfiança, o que fica depois do filme é a perspectiva pelo próximo.

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