01/06/2026
Autoria
Lilianna Bernartt
Tempo de Leitura
6 min
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Em sua estreia em longa metragem, Carol Rodrigues discute raça, classe, colorismo e os limites da reparação histórica.
E talvez uma das maiores qualidades do filme esteja justamente na escolha de abordar essas questões dentro da própria comunidade negra. Há uma coragem rara em discutir diferenças de tom de pele, privilégios relativos e lugares de pertencimento sem recorrer a simplificações. Criadas compreende que a experiência racial não é homogênea e que existem camadas de poder e apagamento operando mesmo entre aqueles que compartilham uma origem comum. É uma discussão complexa, desconfortável e profundamente necessária, que o cinema brasileiro ainda aborda menos do que deveria.
Ao mesmo tempo, o filme demonstra uma urgência tão grande em comunicar suas ideias que, por vezes, a discussão se sobrepõe à experiência dramática. Não porque o tema não seja importante — ele é fundamental. Mas porque cinema também é uma arte construída sobre espaços vazios, sobre aquilo que o espectador completa. Existe uma diferença entre provocar reflexão e conduzir o olhar até uma conclusão específica. Em alguns momentos, Criadas parece confiar mais na força de sua argumentação do que na capacidade do público de percorrer esse caminho junto com as personagens.
Isso se manifesta sobretudo na quantidade de signos que ocupam a narrativa. Fantasmas, retratos, crianças que retornam, paredes, objetos, memórias materializadas. Carol Rodrigues transforma a casa em um território simbólico permanentemente ativo, onde passado e presente coexistem sem fronteiras definidas. É uma estratégia que frequentemente beira a saturação, mas que também revela uma cineasta disposta a correr riscos formais. Há algo de admirável nessa recusa ao naturalismo puro. O filme não teme o subjetivo, o lúdico ou o alegórico. Pelo contrário: abraça essas dimensões como ferramentas legítimas para pensar a história.
E é justamente por isso que a obra encontra seu equilíbrio. Se o excesso de significados às vezes limita a liberdade interpretativa do espectador, ele também produz uma experiência cinematográfica vibrante. A casa onde a narrativa se desenrola torna-se um dos elementos mais fortes do filme. Não apenas um cenário, mas uma espécie de arquivo vivo, um espaço onde conflitos familiares, históricos e sociais se acumulam camada após camada. A sensação é de que aquelas paredes carregam mais memória do que os próprios personagens. Poucos filmes recentes conseguem transformar um espaço doméstico em algo tão carregado de tensão histórica.
O principal efeito colateral dessa operação recaia sobre as protagonistas. Em diversos momentos, Sandra e Mariana parecem existir menos como indivíduos e mais como representantes de forças maiores do que elas, tanto que suas subjetividades ficam em segundo plano. O passado exerce sobre elas uma força tão dominante que suas versões adultas acabam funcionando mais como consequência de processos históricos do que como indivíduos plenamente constituídos. Como se suas trajetórias estivessem constantemente subordinadas à necessidade de representar uma ideia maior.
Essa sensação se intensifica porque o filme retorna repetidamente aos mesmos marcadores de memória e ancestralidade. A insistência na presença dos fantasmas, das imagens e dos traumas herdados produz um efeito paradoxal: ao mesmo tempo em que evidencia a impossibilidade de escapar da história, acaba limitando a capacidade das protagonistas de existirem para além dela.
A personagem de Ana Flávia Cavalcanti sugere uma mulher que possui consciência das estruturas que a cercam, que tenta compreender o passado e agir sobre ele. No entanto, a narrativa constantemente a reposiciona diante de algo impossível de controlar ou reparar individualmente. Há uma espécie de descrédito inevitável de suas intenções porque o problema que o filme enfrenta é muito maior do que qualquer gesto pessoal.
Nesse sentido, Criadas surge menos interessado na transformação íntima de suas personagens do que na ideia de reparação histórica. O destino emocional das protagonistas acaba se tornando secundário diante da necessidade de confrontar uma herança coletiva. É uma escolha legítima, embora nem sempre dramaticamente equilibrada. Em alguns momentos sentimos falta de mais contradições, mais ambiguidades, mais espaço para que essas mulheres existam para além das posições que ocupam dentro do debate proposto.
Ainda assim, o longa nunca deixa de transmitir uma forte vontade de cinema. Existe uma convicção muito clara nas escolhas de Carol Rodrigues, uma crença de que a ficção pode ser um instrumento para reorganizar memórias, expor violências naturalizadas e produzir novas formas de olhar para o presente. Mesmo quando exagera, mesmo quando explica mais do que sugere, o filme permanece inquieto, inventivo e profundamente comprometido com aquilo que deseja discutir.
No fim, Criadas chega com força para em abrir feridas, sem o menor interesse de cicatrizá-las, porque algumas histórias não pedem conforto, pedem enfrentamento. Carol Rodrigues entende essa urgência e a transforma em linguagem. Às vezes o discurso pesa mais do que os personagens conseguem suportar. Mas a potência de suas imagens, a inteligência das questões que levanta e a coragem de ocupar territórios pouco explorados pelo cinema brasileiro contemporâneo fazem com que o filme permaneça vivo muito depois do encerramento da sessão.
Confira a entrevista que tivemos com Carol Rodrigues:
Título: CRIADAS
Ano: 2024
Direção: Carol Rodrigues
Elenco: Mawusi Tulani, Ana Flavia Cavalcanti, Sarito Rodrigues, Ivy Souza, Rudmira Fula, Vitória Marques Rodrigues, Alice de Jesus Feitosa, Alli Willow, Tom Nunes e Jerry Gilli
Duração: 105min
Visto em: 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo - MostraSP
Pão Doce: quando trabalhar significa não ter tempo para viver
No 54º Festival de Cinema de Gramado, Pão Doce conquistou dois Kikitos: Melhor Direção, para Wesley Guimarães, e Melhor Ator, para Francisco Gaspar. Os prêmios chamam atenção para um curta que parte de uma questão extremamente contemporânea e urgente, mas ainda pouco explorada pela ficção brasileira: os impactos da escala 6×1 na vida de quem trabalha sob uma lógica que parece deixar cada vez menos espaço para simplesmente viver.
FEITO PIPA, de Allan Deberton
Quando acompanhei Feito Pipa em sua estreia internacional, no Festival de Berlim, havia algo muito bonito em perceber, já naquele primeiro encontro com o público, como uma história tão profundamente brasileira conseguia atravessar fronteiras sem precisar diluir nenhuma de suas particularidades. O Ceará, a casa colorida de Dilma, o futebol, as relações familiares, os gestos de Gugu: tudo permanecia profundamente localizado e, ainda assim, imediatamente reconhecível. Agora, em sua estreia nacional durante o 54º Festival de Cinema de Gramado, uma nova camada se revela: se em Berlim ficou claro o quanto nossas histórias conseguem se comunicar universalmente, aqui se torna ainda mais evidente o calor da identificação quando o público brasileiro se vê na tela, reconhecendo pessoas, afetos, contradições e violências que fazem parte de sua própria experiência.
ANTÁRTIDA, de Bruno Safadi
Existe uma contradição interessante no centro de Antártida. O novo filme de Bruno Safadi se vale de uma das mais sofisticadas experiências de produção virtual já realizadas no audiovisual brasileiro para tratar de uma violência antiga, estrutural e ainda frequentemente confinada ao espaço íntimo. Ao colocar seus personagens isolados em uma estação de pesquisa cercada pelo gelo, o filme encontra um microcosmo potente para discutir violência contra a mulher, relações de gênero, poder e a necessidade de transformar uma questão individual em responsabilidade coletiva. Mas, diante da urgência do que deseja comunicar, Antártida parece não confiar inteiramente na capacidade do cinema de fazê-lo sem explicar suas próprias intenções. O resultado é um filme tecnicamente ambicioso e tematicamente necessário, mas atravessado por uma dramaturgia irregular, arcos pouco desenvolvidos e uma vocação pedagógica que, ao mesmo tempo em que amplia seu alcance, frequentemente reduz sua complexidade.