16/08/2026
Autoria
Lilianna Bernartt
Tempo de Leitura
7 min
Categorias
Existe uma contradição interessante no centro de Antártida. O novo filme de Bruno Safadi se vale de uma das mais sofisticadas experiências de produção virtual já realizadas no audiovisual brasileiro para tratar de uma violência antiga, estrutural e ainda frequentemente confinada ao espaço íntimo. Ao colocar seus personagens isolados em uma estação de pesquisa cercada pelo gelo, o filme encontra um microcosmo potente para discutir violência contra a mulher, relações de gênero, poder e a necessidade de transformar uma questão individual em responsabilidade coletiva. Mas, diante da urgência do que deseja comunicar, Antártida parece não confiar inteiramente na capacidade do cinema de fazê-lo sem explicar suas próprias intenções. O resultado é um filme tecnicamente ambicioso e tematicamente necessário, mas atravessado por uma dramaturgia irregular, arcos pouco desenvolvidos e uma vocação pedagógica que, ao mesmo tempo em que amplia seu alcance, frequentemente reduz sua complexidade.
O filme parte de uma premissa fértil para um thriller – um grupo de cientistas e militares está confinado em uma estação brasileira na Antártida quando uma violência contra uma das mulheres da equipe transforma completamente as relações daquele espaço. Não há possibilidade imediata de sair dali, de forma que a ameaça não vem da neve que os cerca, mas da impossibilidade de escapar daqueles com quem se divide o confinamento.
Assim como seu argumento inicial, Bruno Safadi mentem a ideia eficiente de contradição: um dos maiores espaços vazios do planeta se transforma numa prisão. É nesse sentido que a escolha do confinamento encontra sua maior potência, porque mais que uma condição geográfica, ele funciona como representação de um microcosmo social. As relações de gênero, os mecanismos de poder, a violência, medo e os silêncios são condensados naquele pequeno grupo.
E é particularmente pertinente esse movimento já que a violência contra a mulher ainda é frequentemente tratada exatamente desta forma, privada. A violência doméstica pertence ao casal, o abuso à vítima, o silêncio à família. Antártida retira essa possibilidade de isolamento simbólico ao enclausurar todos os envolvidos. O que aconteceu com uma mulher impreterivelmente a interferir na existência de todos. É quando o filme compreende essa dimensão coletiva que sua proposta se torna mais interessante.
O problema é que Antártida quer colocar muitas outras coisas dentro desse mesmo espaço. Questões de gênero, classe, hierarquia, masculinidade, relações afetivas, maternidade, luto, desejo, culpa, violência doméstica e diferentes formas de exercício de poder. Isoladamente, são caminhos que poderiam ampliar a complexidade daquele pequeno universo; juntos, dentro de pouquíssima uma hora e meia, começam a disputar espaço.
Alguns personagens anunciam histórias que não chegam efetivamente a se desenvolver, outros recebem conflitos importantes que surgem, desaparecem e retornam quando a narrativa necessita deles. Muitas relações são estabelecidas com velocidade e não encontram base na construção emocional das personagens, de forma que em muitos arcos encontram resoluções que parecem corresponder à necessidade de fechar os assuntos que o roteiro abriu.
O problema não é ter muito a dizer, mas sim não ter espaço para transformar a ideia em dramaturgia. Sendo assim, talvez como uma forma de resolução à essa velocidade, o roteiro acaba por muitos momentos se tornando pedagógico e as personagens, mais do que agir, verbalizam suas ideias.
Cinematograficamente, esse movimento cobra um preço.
Porque o cinema também se constrói no intervalo, entre o que o filme mostra e o que o espectador é capaz de perceber, nos silêncios. Quando a palavra toma à frente, outras coisas acabam por ficar em segundo plano.
Entretanto, existe uma observação nessa escolha que merece ser considerada.
O filme faz uma clara tentativa de propagar uma questão ainda frequentemente silenciada. E neste sentido, é impossível ignorar que, para uma parcela significativa da sociedade, conceitos básicos relacionados a consentimento, violência e culpabilização da vítima ainda precisam efetivamente ser ditos.
Isso revela uma realidade incômoda: o filme precisa ser pedagógico porque a sociedade sobre a qual ele fala precisa disto, ou porque ainda existem poucos espaços verdadeiramente amplos para que determinadas conversas sejam realizadas com profundidade.
Entretanto, um filme popular não precisa necessariamente simplificar para comunicar. Talvez o desafio seja justamente confiar que a força de uma situação dramática bem construída também é capaz de produzir entendimento.
Essa tensão entre ambição e simplificação aparece igualmente na maneira como Antártida trabalha o gênero.
Existe aqui um thriller de confinamento bastante clássico: um crime, um grupo limitado de possíveis responsáveis e a impossibilidade de abandonar o espaço. Safadi trabalha a suspeita circulando entre personagens e utiliza corredores, portas, alojamentos e áreas comuns para produzir a sensação de que segurança e ameaça ocupam exatamente o mesmo lugar.
Os melhores momentos de suspense vem exatamente da convivência: personagens que precisam continuar dividindo refeições, espaços e rotinas enquanto a confiança já não existe. Já em outros, a tensão depende excessivamente de mecanismos do roteiro — informações adiadas, comportamentos pouco plausíveis ou acontecimentos que precisam ocorrer para conduzir a narrativa à próxima etapa.
A montagem tenta imprimir urgência a essa progressão, mas o ritmo acelerado também acentua um dos problemas já mencionados do texto: determinadas relações e consequências não recebem tempo suficiente para sedimentar.
A fotografia encontra imagens de grande beleza na oposição entre a pequenez humana e a monumentalidade branca que circunda os personagens. Lá fora, tudo parece infinito. Dentro, falta espaço. Essa contradição poderia ser mais explorada pela encenação. Se o frio é responsável pelo confinamento, ele não pode funcionar apenas como informação narrativa ou qualidade visual. Precisa existir nos corpos. Temperatura influencia diretamente na postura, respiração, velocidade de raciocínio, decisões. Em muitos momentos, as personagens e suas ações parecem pouco ou nada afetadas pelas condições climáticas extremas que o próprio filme propõe, reduzindo o gelo a cenário.
Isso ganha ainda mais importância diante da qualidade técnica do filme.
Antártida foi realizado com produção virtual nos Estúdios Globo, utilizando tecnologia para recriar um ambiente cuja filmagem integral em locação seria inviável praticamente. O filme afirma que com esse tipo de tecnologia, é possível construir uma paisagem convincente – mas as personagens, o humano é o que faz o cinema acontecer. Se a imagem nos oferece um ambiente hostil, a dramaturgia os corpos tem de responder a esse espaço.
Existe um cinema brasileiro disposto a experimentar ferramentas novas, ampliar sua escala de produção e construir imagens que até pouco tempo seriam extremamente difíceis de realizar por aqui. Narrativamente, entretanto, existe um filme que ainda hesita diante da complexidade das próprias questões e frequentemente prefere assegurar a mensagem do que se arriscar na ambiguidade.
Por fim, há, sim, algo significativo em utilizar uma produção dessa dimensão, um elenco popular e uma estrutura de thriller para colocar a violência contra a mulher no centro de uma narrativa destinada a circular amplamente. Existe uma escolha de alcance aí que deve ser validada.
O filme nem sempre encontra profundidade suficiente para todas as perguntas que abre. Algumas de suas respostas são fáceis demais, alguns caminhos ficam pelo meio e sua necessidade de ensinar frequentemente impede que suas imagens tenham a última palavra.
Mas existe valor em colocar essas perguntas diante de um público amplo.
Porque, no fim, a questão mais potente de Antártida não é descobrir o que aconteceu dentro daquela estação, mas perceber que o microcosmo que ela constrói não está tão isolado de nós quanto o gelo do filme tenta fazer parecer.
O filme chega aos cinemas em 17 de setembro de 2026.
Filme assistido durante o 54º Festival de Cinema de Gramado.
Confira o trailer:
OS RUMINANTES, de Tarsila Araújo e Marcelo Mello
O cinema nunca é apenas o filme. É também tudo aquilo que o cerca: os encontros, impasses, tempo, desejos, condições políticas e materiais que tornam uma obra possível — ou impedem que ela exista. Os Ruminantes, documentário de Tarsila Araújo e Marcelo Mello, parte justamente desta ideia. Ao investigar um filme que nunca chegou às telas, acaba por revelar muito mais sobre o cinema brasileiro, fazendo uma reflexão sobre a memória e o próprio fazer cinematográfico.
FUTURO FUTURO, de Davi Pretto
Em Futuro Futuro, Davi Pretto imagina um amanhã onde a maior perda não é a tecnologia, mas a experiência humana
A Odisseia de Nolan: um espetáculo monumental à procura de uma alma
Adaptar A Odisseia talvez seja um dos maiores desafios que um cineasta possa assumir. Não apenas porque Homero escreveu um dos textos fundadores da literatura ocidental, mas porque sua obra parece resistir à própria ideia de adaptação. Ao longo de quase três mil anos, a jornada de Odisseu atravessou culturas, religiões e linguagens sem nunca perder sua força. Isso acontece porque A Odisseia nunca foi realmente sobre monstros, deuses ou criaturas fantásticas. O mito sempre foi apenas a linguagem escolhida por Homero para falar daquilo que existe de mais profundamente humano: culpa, desejo, orgulho, tempo, perda e identidade. No fundo, sua epopeia é a história de um homem tentando voltar para casa — e, principalmente, tentando voltar para si mesmo.