06/08/2026
Autoria
Lilianna Bernartt
Tempo de Leitura
5 min
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O cinema nunca é apenas o filme. É também tudo aquilo que o cerca: os encontros, impasses, tempo, desejos, condições políticas e materiais que tornam uma obra possível — ou impedem que ela exista. Os Ruminantes, documentário de Tarsila Araújo e Marcelo Mello, parte justamente desta ideia. Ao investigar um filme que nunca chegou às telas, acaba por revelar muito mais sobre o cinema brasileiro, fazendo uma reflexão sobre a memória e o próprio fazer cinematográfico.
À primeira vista, Os Ruminantes parte da curiosidade em torno da adaptação de A Hora dos Ruminantes, romance de José J. Veiga que Luiz Sérgio Person e Jean-Claude Bernadet escreveram no final da década de 1960, mas jamais conseguiram filmar. Seria fácil transformar esse projeto em mais um mito da filmografia brasileira, um “grande filme perdido” envolto por teorias e nostalgias. Os diretores, felizmente, seguem pelo caminho oposto. O interesse nunca está em reconstruir o que não existe, mas em investigar o por quê dessa ausência e o que ela continua dizendo tanto sobre o cinema brasileiro.
E isso passa, inevitavelmente, pela figura de Jean-Claude Bernadet.
Bernadet ajudou a construir a maneira como o Brasil pensa o seu próprio cinema. Foi professor, roteirista, ensaísta, cineasta, um intelectual cuja atuação sempre ultrapassou a reflexão teórica. Pensava o cinema enquanto linguagem, mas também enquanto prática, política pública e forma de intervenção no mundo. Sua parceria com Luiz Sérgio Person nasce exatamente desse encontro entre pensamento e realização. Antes de A Hora dos Ruminantes, os dois já haviam colaborado em O Caso dos Irmãos Naves, um dos filmes mais contundentes da cinematografia brasileira sobre violência institucional e autoritarismo.
Mais do que parceiros, Person e Bernadet compartilhavam inquietações. Ambos admiravam e criticavam o Cinema Novo e seus limites. Acreditavam que o cinema político precisava encontrar outras formas de comunicação com o espectador, recusando a ideia de que complexidade e distanciamento fossem necessariamente sinônimos. A Hora dos Ruminantes surgia justamente dessa busca: uma alegoria capaz de dialogar com a violência da ditadura sem abrir mão da potência narrativa e do realismo fantástico presente na obra de José J. Veiga.
E é essa discussão que o filme de Tarsila Araújo e Marcelo Mello reacende.
O documentário nunca se limita à cronologia dos fatos. Enquanto recompõe cartas, fotografias, roteiros e memórias, ele realiza operação muito mais sofisticada: uma verdadeira arqueologia do imaginário do cinema brasileiro.
Trechos de obras produzidas entre as décadas de 1920 e 1960 como forma de construção de pensamento do filme, estabelecendo diálogos e reorganizando uma memória coletiva, fazendo, por fim, com que a história de Person e Bernadet seja compreendida como parte de uma tradição muito maior.
É um gesto de profundo amor ao cinema brasileiro.
Poucos documentários conseguem fazer arquivos respirarem dessa maneira.
Cada imagem carrega não só o peso da preservação, mas também o da continuidade – o passado como objeto de contemplação, vívido, interferindo diretamente nas perguntas que fazemos hoje.
Nesse sentido, Os Ruminantes acaba produzindo algo que supera sua investigação histórica. O filme funciona quase como uma decupagem do próprio fazer cinematográfico. Ao acompanhar um roteiro que nunca saiu do papel, revela processos normalmente invisíveis: a escrita, as negociações, dificuldades de financiamento, os atravessamentos políticos, escolhas estéticas, interrupções. O espectador passa a enxergar o cinema não apenas como obra pronta, mas como um conjunto de decisões constantemente negociadas com a realidade.
Essa percepção faz com que o documentário dialogue o tempo inteiro com o presente, já que é impossível assistir às dificuldades enfrentadas por Person e Bernadet sem pensar no cinema brasileiro contemporâneo. Mudam os governos, mudam as circunstâncias, mas permanecem discussões sobre financiamento, continuidade das políticas públicas, preservação da memória audiovisual e, sobretudo, sobre as condições necessárias para que um filme possa existir. Quando Bernadet, em um de seus depoimentos, relaciona os bois de A Hora dos Ruminantes com a bancada ruralista, ele não está apenas fazendo uma metáfora, mas lembrando que o cinema sempre conversa com seu tempo, mesmo quando olha para o passado.
Por isso Os Ruminantes nunca se fecha em si mesmo. Ao contrário de muitos documentários biográficos, ele consegue resistir à tentação de responder todas as perguntas. Algumas permanecem abertas: como seria aquele filme? Teria alcançado a potência imaginada por seus autores? Até que ponto sua não realização alterou a trajetória do nosso cinema?
Desta forma, você vai às salas de cinema para saber de uma história e termina refletindo acerca da própria ideia de cinema, que se constrói tanto pelas obras realizadas quanto por aquelas interrompidas no caminho; tanto pelas imagens preservadas quanto pelas que jamais chegaram a existir.
Poucos filmes recentes conseguem transmitir um amor tão profundo pelo cinema brasileiro sem transformar esse sentimento em nostalgia. Os Ruminantes prefere algo muito mais potente: fazer da memória um exercício de futuro.
Confira a entrevista com Tarsila Araújo e Marcelo Mello:
Confira o trailer:
Pão Doce: quando trabalhar significa não ter tempo para viver
No 54º Festival de Cinema de Gramado, Pão Doce conquistou dois Kikitos: Melhor Direção, para Wesley Gabriel, e Melhor Ator, para Francisco Gaspar. Os prêmios chamam atenção para um curta que parte de uma questão extremamente contemporânea e urgente, mas ainda pouco explorada pela ficção brasileira: os impactos da escala 6×1 na vida de quem trabalha sob uma lógica que parece deixar cada vez menos espaço para simplesmente viver.
FEITO PIPA, de Allan Deberton
Quando acompanhei Feito Pipa em sua estreia internacional, no Festival de Berlim, havia algo muito bonito em perceber, já naquele primeiro encontro com o público, como uma história tão profundamente brasileira conseguia atravessar fronteiras sem precisar diluir nenhuma de suas particularidades. O Ceará, a casa colorida de Dilma, o futebol, as relações familiares, os gestos de Gugu: tudo permanecia profundamente localizado e, ainda assim, imediatamente reconhecível. Agora, em sua estreia nacional durante o 54º Festival de Cinema de Gramado, uma nova camada se revela: se em Berlim ficou claro o quanto nossas histórias conseguem se comunicar universalmente, aqui se torna ainda mais evidente o calor da identificação quando o público brasileiro se vê na tela, reconhecendo pessoas, afetos, contradições e violências que fazem parte de sua própria experiência.
ANTÁRTIDA, de Bruno Safadi
Existe uma contradição interessante no centro de Antártida. O novo filme de Bruno Safadi se vale de uma das mais sofisticadas experiências de produção virtual já realizadas no audiovisual brasileiro para tratar de uma violência antiga, estrutural e ainda frequentemente confinada ao espaço íntimo. Ao colocar seus personagens isolados em uma estação de pesquisa cercada pelo gelo, o filme encontra um microcosmo potente para discutir violência contra a mulher, relações de gênero, poder e a necessidade de transformar uma questão individual em responsabilidade coletiva. Mas, diante da urgência do que deseja comunicar, Antártida parece não confiar inteiramente na capacidade do cinema de fazê-lo sem explicar suas próprias intenções. O resultado é um filme tecnicamente ambicioso e tematicamente necessário, mas atravessado por uma dramaturgia irregular, arcos pouco desenvolvidos e uma vocação pedagógica que, ao mesmo tempo em que amplia seu alcance, frequentemente reduz sua complexidade.