17/08/2026
Autoria
Lilianna Bernartt
Tempo de Leitura
8 min
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Quando acompanhei Feito Pipa em sua estreia internacional, no Festival de Berlim, havia algo muito bonito em perceber, já naquele primeiro encontro com o público, como uma história tão profundamente brasileira conseguia atravessar fronteiras sem precisar diluir nenhuma de suas particularidades. O Ceará, a casa colorida de Dilma, o futebol, as relações familiares, os gestos de Gugu: tudo permanecia profundamente localizado e, ainda assim, imediatamente reconhecível. Agora, em sua estreia nacional durante o 54º Festival de Cinema de Gramado, uma nova camada se revela: se em Berlim ficou claro o quanto nossas histórias conseguem se comunicar universalmente, aqui se torna ainda mais evidente o calor da identificação quando o público brasileiro se vê na tela, reconhecendo pessoas, afetos, contradições e violências que fazem parte de sua própria experiência.
No centro do filme está Gugu, vivido brilhantemente por Yuri Gomes, um menino que ainda está descobrindo quem é e, mais importante, quem pode ser. Feito Pipa é muito cuidadoso ao não apressar essa definição. Gugu não precisa se explicar, não precisa escolher uma identidade pronta, organizar seus desejos ou oferecer ao espectador uma resposta sobre quem será. Ele joga futebol, dança, pinta as unhas, gosta de cores e ocupa o próprio corpo com uma liberdade absolutamente natural, até que o mundo ao redor começa a dizer que essas coisas não deveriam coexistir.
Há algo extremamente bonito e político na escolha do cineasta Allan Deberton de respeitar o tempo de uma criança.
O filme não reivindica para Gugu apenas o direito de ser quem é. Reivindica seu direito de ainda não saber exatamente quem é, de experimentar, permanecer em movimento e não ser reduzido por aquilo que os adultos já conseguem enxergar nele. É justamente quando esse direito começa a ser ameaçado que Feito Pipa encontra parte de sua força dramática.
É também por isso que a relação de Gugu com Dilma, vivida por Teca Pereira em uma atuação magnífica, é tão poderosa. Se Gugu está em processo de descoberta, Dilma luta para continuar sendo aquilo que construiu ao longo de toda uma vida. Essa oposição organiza silenciosamente o filme.
É preciso ressaltar a preciosidade de Dilma, que deriva do fato de Allan Deberton e Teca Pereira recusarem qualquer representação simplificada da velhice. Ela não é apenas a avó afetuosa que existe em função do neto. É mulher, desejo, vaidade, humor, teimosia, sexualidade. Dança, flerta, se maquia, se diverte e ocupa os espaços como alguém que ainda tem enorme curiosidade pela vida.
Teca Pereira compreende essa personagem pelo corpo. Há uma leveza particular em seus movimentos, um prazer em estar no mundo que faz com que Dilma pareça, durante boa parte do filme, incapaz de caber nos estereótipos que normalmente reservamos às mulheres mais velhas. Por isso é tão doloroso acompanhar seu processo de perda.
Enquanto Gugu conquista linguagem para existir, Dilma começa a perder instrumentos que sempre utilizou para se reconhecer. E a diferença de idade entre os dois, que poderia sugerir distância, produz o vínculo mais livre de todo o filme. Dilma não precisa compreender teoricamente Gugu, não exige dele explicações ou definições. Ela simplesmente permite que aquele menino exista diante dela.
Isso faz com que Feito Pipa faça um questionamento muito interessante sobre família: afinal, o que transforma uma relação de parentesco em vínculo?
Batista, interpretado por Lázaro Ramos, torna essa pergunta muito mais complexa.
Seria fácil construir esse pai como antagonista: um homem conservador, incapaz de aceitar as características do filho e, portanto, responsável direto por parte de seu sofrimento. Mas o filme escolhe uma região muito mais desconfortável. Batista ama Gugu, mas condiciona esse amor àquilo que reconhece como modelo de masculinidade e ao que consegue identificar de si próprio no menino.
Batista é capaz de demonstrar orgulho pelo filho quando Gugu corresponde àquilo que ele compreende como um menino deve ser. O futebol funciona quase como uma zona de conciliação entre os dois: ali, Batista reconhece o filho segundo códigos que lhe são familiares. Mas, quando Gugu escapa desse território — na maneira como se veste, se movimenta ou se expressa — aquele amor começa a revelar suas condições.
É um amor que existe, mas que deseja modificar o objeto amado.
Lázaro Ramos trabalha Batista sem tentar absolvê-lo. Há dureza, desconforto, inadequação, mas também uma incapacidade genuína de compreender aquilo que está diante dele. Isso faz diferença. Batista não é construído como alguém deliberadamente disposto a machucar o filho. Em determinados momentos, parece acreditar que aquilo que faz é uma forma de educação, proteção ou preparação para o mundo. É justamente aí que o personagem se torna reconhecível.
Porque muitas violências familiares não surgem da ausência de afeto, mas da incapacidade de permitir que o outro exista fora daquilo que projetamos para ele. Dilma e Batista amam Gugu, mas apenas uma dessas figuras compreende que amar também pode significar não interferir na forma que o outro encontra para existir.
Essa tensão encontra tradução perfeita na própria imagem da pipa. Não há voo sem vínculo, mas tampouco existe voo quando a linha é segurada com força demais. Gugu passa boa parte do filme tentando encontrar a distância possível entre essas duas forças.
Yuri Gomes, por sua vez, leva para a tela toda essa complexidade e confusão de sentimentos com uma espontaneidade impressionante, preservando algo fundamental: Gugu continua sendo uma criança. O jovem ator não carrega o personagem com a consciência das questões que o filme discute; permite que elas apareçam através de seus gestos, reações, silêncios e mudanças de comportamento.
Quando a realidade começa a impor responsabilidades que não deveriam pertencer a Gugu, seu corpo muda antes mesmo que o roteiro precise explicar essa transformação. A espontaneidade inicial vai cedendo espaço para uma espécie de vigilância. Gugu passa a observar mais, esconder mais, proteger-se mais.
A inversão do cuidado entre ele e Dilma é uma das coisas mais dolorosas do filme justamente porque não deveria estar acontecendo. Aquele que era cuidado passa a assumir responsabilidades para as quais ainda não deveria estar preparado.
É nesse processo que Feito Pipa abandona qualquer possibilidade de ser apenas uma narrativa solar sobre aceitação. Há perda, raiva e um endurecimento inevitável. O filme compreende que determinados processos de amadurecimento não são conquistas, mas imposições.
A direção de Allan Deberton é especialmente eficiente em tornar essas transformações visíveis sem submetê-las a uma explicação constante. Outro aspecto que merece atenção é seu olhar para os espaços.
A casa de Dilma não funciona apenas como cenário, mas como extensão das personagens. Cores, objetos, roupas, maquiagem e música constroem um ambiente que parece operar de acordo com as mesmas regras afetivas daquela relação: há espaço para excesso, movimento e alegria.
À medida que a condição de Dilma avança, nossa percepção desse espaço também se modifica. A relação entre memória e território atravessa silenciosamente a narrativa e ajuda a compreender por que o filme funciona tão bem quando permite que suas metáforas existam sem explicá-las excessivamente.
Esse movimento também aparece de forma progressiva na obra de Deberton. Se em Pacarrete e em outros trabalhos o cineasta já demonstrava enorme curiosidade por personagens que escapam das expectativas sociais colocadas sobre seus corpos, Feito Pipa confirma um diretor cada vez mais interessado na liberdade como gesto cinematográfico.
Allan Deberton se firma como um dos realizadores brasileiros mais refrescantes de acompanhar atualmente justamente porque não parece interessado em transformar diferença em excepcionalidade. Seus personagens não precisam ser extraordinários para merecer atenção; eles simplesmente existem com intensidade suficiente para desafiar o lugar que o mundo reservou para eles.
Existe humor em seu cinema, cor, música, sensualidade, dor e uma enorme confiança nos atores. Mas, sobretudo, existe curiosidade pelas pessoas. É essa curiosidade que permite que Feito Pipa atravesse públicos tão distintos sem precisar traduzir ou simplificar aquilo que o torna profundamente brasileiro.
Depois de acompanhar o filme encontrar seu primeiro público em Berlim e, meses depois, vê-lo chegar a uma plateia brasileira em Gramado, o que permanece é justamente a potência desse reconhecimento. Feito Pipa fala sobre identidade, envelhecimento e preconceito, mas encontra sua dimensão mais profunda na construção dos vínculos: na diferença entre amar e acolher, proteger e aprisionar, segurar alguém perto e permitir que ele encontre seu próprio movimento. Como a pipa que dá nome ao filme, Gugu precisa do vínculo para não se perder, mas também de linha suficiente para ter segurança para voar. Allan Deberton compreende que liberdade não significa ausência de laços — significa poder existir dentro deles sem precisar diminuir a si mesmo.
Crítica realizada durante o 54º Festival de Cinema de Gramado.
Confira o trailer:
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