08/06/2026
Autoria
Lilianna Bernartt
Tempo de Leitura
5 min
Categorias
Direção: Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar
Dolores carrega um desafio raro: o de ser simultaneamente uma obra de herança e uma obra de continuidade. Concebido originalmente por Chico Teixeira e realizado após sua morte por Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar, o filme encerra a Trilogia dos Afetos iniciada com A Casa de Alice e continuada por Ausência. Mais do que um último capítulo, porém, Dolores se transforma em um encontro entre diferentes sensibilidades cinematográficas que encontram pontos de contato.
A presença de Chico Teixeira é evidente desde os primeiros minutos. Permanecem seu interesse pelos vínculos familiares, pelas personagens que habitam as margens dos grandes acontecimentos e por uma dramaturgia construída a partir dos pequenos deslocamentos emocionais da vida cotidiana. Como nos filmes anteriores da trilogia, o drama não nasce de eventos extraordinários, mas de pessoas comuns tentando reorganizar suas existências diante de rupturas íntimas. Existe um olhar profundamente afetuoso para essas mulheres, uma recusa em julgá-las ou transformá-las em exemplos morais, característica que sempre atravessou a obra do cineasta.
Mas talvez o aspecto mais interessante de Dolores esteja justamente no fato de Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar não se limitarem ao papel de guardiões de um legado. Há um evidente respeito ao universo de Chico Teixeira, mas não uma tentativa de reproduzir sua linguagem ou desaparecer atrás dela. Pelo contrário. O filme deixa entrever as pesquisas formais e temáticas que ambos vêm desenvolvendo em suas próprias trajetórias, sobretudo no interesse pela relação entre sonho, desejo e realidade.
Se o cinema de Chico estava frequentemente ancorado na materialidade da experiência cotidiana, Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar parecem expandir esse universo em direção a uma dimensão mais subjetiva. Não se trata exatamente de introduzir elementos fantásticos, mas de permitir que sonho e realidade coexistam de maneira horizontal. Os desejos das personagens não aparecem como fuga da vida concreta, mas como parte integrante dela. A imaginação deixa de ser contraponto do real para se tornar uma forma de habitá-lo.
Essa horizontalidade entre o concreto e o imaginado também se manifesta na construção visual do filme. Embora ancorado na periferia paulistana, Dolores evita a fotografia acinzentada ou o naturalismo austero que frequentemente marcam representações desses espaços no cinema brasileiro. As cores ocupam um papel fundamental na narrativa, trazendo calor, vitalidade e até certo encantamento para ambientes que poderiam ser filmados apenas a partir da precariedade. Tons vibrantes atravessam figurinos, interiores e luzes noturnas, reforçando a ideia de que essas personagens não habitam apenas uma realidade social, mas também um universo de desejos, projeções e fantasias.
“A periferia retratada pelo filme não é apenas o espaço da carência, mas também da imaginação. Nesse sentido, a direção de arte e a fotografia dialogam diretamente com a proposta dos realizadores de não estabelecer hierarquias entre o sonho e a vida concreta, permitindo que ambos coexistam dentro do mesmo quadro“
Essa aproximação dialoga diretamente com investigações recentes dos dois realizadores. Marcelo Gomes vem demonstrando interesse crescente pelos territórios do inconsciente e da interpretação dos sonhos, enquanto Maria Clara Escobar também desenvolve uma filmografia atravessada por personagens que transitam entre a experiência objetiva e seus universos interiores. Em Dolores, essas pesquisas encontram terreno fértil para florescer. O resultado é um filme que amplia o universo concebido por Chico para além de um retrato social da periferia paulistana, permitindo que suas personagens sejam definidas não apenas pelas condições em que vivem, mas também pelos futuros que imaginam para si.
Nesse contexto, a presença de Carla Ribas e Gilda Nomacce adquire um significado que ultrapassa o elenco. Carla, protagonista de A Casa de Alice, retorna agora como Dolores, emprestando à personagem uma força silenciosa e uma vulnerabilidade que dialogam diretamente com sua trajetória dentro da obra de Chico Teixeira. Gilda Nomacce, figura fundamental de Ausência, reaparece como Marlene, mais uma vez trazendo para cena sua capacidade singular de combinar dureza e acolhimento. Há algo de profundamente comovente nesse reencontro. Não apenas porque ambas entregam interpretações precisas e generosas, mas porque suas presenças funcionam como uma espécie de memória viva da trilogia. Vê-las novamente nesse universo produz a sensação de encerramento de um ciclo artístico e afetivo que atravessou quase duas décadas do cinema brasileiro.
Ao redor delas, atrizes como Naruna Costa, Ariane Aparecida e Teca Pereira ampliam ainda mais a riqueza desse retrato feminino. O filme encontra grande parte de sua potência justamente na recusa em transformar suas personagens em símbolos. São mulheres contraditórias, desejantes, vulneráveis, fortes, equivocadas e generosas ao mesmo tempo. Mulheres que continuam projetando futuro quando a realidade oferece poucos motivos para acreditar nele.
Talvez por isso Dolores funcione tão bem como conclusão da Trilogia dos Afetos. Não porque encerre narrativas ou ofereça respostas, mas porque reafirma aquilo que sempre esteve no centro do cinema de Chico Teixeira: a crença de que a vida acontece nesse espaço delicado entre aquilo que somos e aquilo que ainda sonhamos ser. Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar compreendem essa herança, mas não se limitam a preservá-la. Fazem dela matéria para continuar a conversa. E é justamente nessa conversa entre diferentes olhares que Dolores encontra sua identidade mais bonita.
Título: DOLORES
Ano: 2025
Direção: Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar
Elenco: Carla Ribas, Naruna Costa, Ariane Aparecida, Gilda Nomacce, Teca Pereira, Zezé Motta, Roney Villela, Bruno Kott e Mateus Fagundes
Duração: 84min
CRIADAS
Em sua estreia em longa metragem, Carol Rodrigues discute raça, classe, colorismo e os limites da reparação histórica.
Título do Post
Esse é o primeiro parágrafo
Os Sopranos
Os Sopranos (1999–2007), criada por David Chase, não é apenas uma das séries mais reverenciadas de todos os tempos; é um marco na história da televisão. A trama acompanha Tony Soprano (James Gandolfini), um chefe da máfia em Nova Jersey, que equilibra os desafios brutais de seu “negócio” com as complexidades de sua vida familiar e as lutas internas de sua saúde mental. Com sua narrativa sofisticada, personagens profundamente complexos e uma visão desafiadora da moralidade, Os Sopranos redefiniu o que a televisão podia ser.