AS CORRENTES, Dir. Milagros Mumenthaler

19/06/2026

AS CORRENTES, Dir. Milagros Mumenthaler

Autoria

Lilianna Bernartt

Tempo de Leitura

5 min

Categorias

Crítica, Filmes (+)

Quando o corpo sabe aquilo que a consciência ainda não consegue dizer

Há uma pergunta silenciosa que atravessa As Correntes, terceiro longa-metragem da cineasta argentina Milagros Mumenthaler: o que acontece quando uma pessoa alcança tudo aquilo que lhe disseram para desejar e, ainda assim, deixa de se reconhecer na própria vida? A partir dessa inquietação, Mumenthaler constrói um filme menos interessado em respostas do que em estados de espírito, menos preocupado em diagnosticar uma crise do que em habitar suas contradições.

Lina, interpretada com impressionante contenção por Isabel Aimé González-Sola, é uma estilista bem-sucedida, mãe, esposa e profissional reconhecida. Sua vida parece organizada segundo os parâmetros convencionais da realização pessoal. No entanto, desde o gesto inaugural que desencadeia a narrativa, algo se rompe. Não se trata de uma ruptura espetacular, tampouco de um colapso facilmente identificável. É uma fissura mais difícil de nomear: a sensação de não pertencer mais à própria existência.

O grande mérito de As Correntes está justamente na recusa de transformar esse mal-estar em um problema a ser solucionado. Em um momento histórico obcecado por diagnósticos, explicações e respostas rápidas, Mumenthaler escolhe o caminho oposto. Lina não passa o filme tentando descobrir “o que tem”. Ela não busca uma causa única para seu sofrimento, nem uma revelação capaz de reorganizar sua trajetória. O que existe é uma tentativa de compreensão, um movimento contínuo de aproximação de si mesma. E é por isso que o filme também se recusa a oferecer respostas definitivas ao espectador.

Há algo profundamente honesto nessa escolha. Mumenthaler compreende que algumas experiências humanas não se organizam de maneira linear. Nem toda crise possui um acontecimento fundador ou pode ser traduzida em palavras. Nem todo desconforto encontra resolução. Ao invés de conduzir Lina a uma catarse programada, a diretora preserva a complexidade da personagem, permitindo que ela exista em suas ambiguidades.

Essa postura dialoga diretamente com a filmografia da realizadora. Desde seus trabalhos anteriores, Mumenthaler demonstra interesse por personagens femininas atravessadas por zonas de transição, ausências e deslocamentos internos. Mas o que distingue seu cinema é a forma como ela se aproxima dessas mulheres. Não há desejo de julgá-las, corrigi-las ou transformá-las em exemplos. Existe, antes, um profundo respeito pela autonomia das personagens. Mumenthaler não as manipula dramaticamente para provar uma tese. Ela observa. Escuta. Acompanha seus movimentos. Em As Correntes, essa ética do olhar alcança uma de suas expressões mais maduras.

Nesse sentido, o filme pode ser lido como uma investigação sobre a dissociação entre corpo e consciência. Em vários momentos, Lina parece compreender menos sobre si mesma do que o próprio corpo. Seus impulsos surgem antes das palavras. Seus gestos antecedem qualquer formulação racional. Como se algo dentro dela já soubesse aquilo que sua consciência ainda não consegue elaborar. A água, elemento recorrente ao longo da narrativa, funciona como extensão desse estado. Ela não aparece apenas como símbolo, mas como uma presença física que atrai, ameaça e convoca a personagem para um território onde as fronteiras entre memória, desejo e identidade tornam-se mais fluidas.

A fotografia desempenha papel fundamental na construção desse universo. Buenos Aires surge menos como cenário do que como projeção emocional de Lina. A cidade é filmada através de enquadramentos que frequentemente enfatizam distâncias, vazios e espaços de transição, criando a sensação de que a personagem habita um mundo ligeiramente deslocado do seu eixo habitual. A colorização aposta em tonalidades suaves, por vezes esmaecidas, que evitam contrastes excessivos e reforçam a atmosfera de suspensão que domina o filme. Há uma delicada tensão entre o realismo dos ambientes e uma percepção quase onírica da imagem. Nada chega a romper com a realidade, mas tudo parece envolto por uma camada de estranhamento. Como se estivéssemos observando o mundo através da sensibilidade alterada de Lina. A fotografia não ilustra seu estado emocional, mas materializa.

Essa construção visual encontra eco na encenação. Mumenthaler trabalha com silêncios, pausas e pequenas variações de comportamento que exigem do espectador um olhar atento. Ao invés de externalizar os conflitos da personagem por meio de diálogos explicativos, o filme aposta na observação dos corpos, dos gestos e das ausências. É um cinema que confia na capacidade da imagem de sugerir aquilo que permanece sem nome.

Talvez por isso As Correntes provoque uma experiência tão singular. Seu objetivo não é conduzir o público por uma jornada clássica de transformação. O filme não busca chegar a um ponto de chegada claramente definido. Seu interesse está justamente no espaço intermediário, nesse território de suspensão em que Lina se encontra. Um lugar onde antigas certezas já não servem, mas novas respostas ainda não surgiram.

Mais do que um filme sobre maternidade, casamento ou realização profissional, As Correntes é uma obra sobre pertencimento. Sobre o instante em que alguém percebe que cumpriu todas as expectativas que lhe foram apresentadas e, ainda assim, continua procurando um lugar para existir. Milagros Mumenthaler transforma essa busca em matéria cinematográfica com rara delicadeza, construindo um filme que não pretende resolver suas questões, mas compreendê-las. E talvez seja justamente aí que resida sua maior força. Não em oferecer respostas, mas em reconhecer que algumas perguntas merecem permanecer abertas.

Confira a entrevista que fizemos com a diretora e a atriz Isabel Aimé:

Ficha Técnica

Título: As Correntes

Título Original: Las Corrientes

Ano: 2025

Direção: Milagros Mumenthaler

Elenco: Isabel Aimé Gonzalez-Sola, Esteban Bigliardi, Claudia Sánchez, Ernestina Gatti, Jazmín Carballo, Patricia Mouzo, Susana Saulquin

Duração: 104min

Nota QuintaDarte: 8,5

Nota Rotten Tomatoes: 97% aprovação

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