01/08/2026
Autoria
Lilianna Bernartt
Tempo de Leitura
5 min
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Em Futuro Futuro, Davi Pretto imagina um amanhã onde a maior perda não é a tecnologia, mas a experiência humana
Curioso que um filme chamado Futuro Futuro desperte uma sensação pulsante de presente. Embora Davi Pretto construa uma ficção científica ambientada em um Brasil de amanhã, o que vemos em cena parece na verdade o prolongamento silencioso do mundo em que já vivemos. A tecnologia evoluiu, a desigualdade se aprofundou, a memória tornou-se um bem manipulável, mas nada disso chega como uma grande ruptura, o futuro imaginado pelo diretor não explode diante dos nossos olhos, ele simplesmente continua.
Nesse cenário conhecemos K (Zé Maria Pescador), um homem que desperta sem memória em uma cidade dividida entre dois mundos que parecem coexistir sem jamais se encontrar. Enquanto tenta descobrir quem foi, K também tenta compreender um espaço onde até as lembranças passaram a depender de dispositivos tecnológicos. A busca por uma identidade acaba se tornando o eixo emocional do filme, mas o cineasta nunca a conduz como um mistério convencional. Mais do que descobrir o passado do protagonista, interessa compreender o que resta de um indivíduo quando sua própria experiência de vida deixa de lhe pertencer.
Essa talvez seja a grande força de Futuro Futuro. Apesar de dialogar diretamente com inteligência artificial, vigilância e colapso ambiental, o filme nunca sublinha a tecnologia por si própria, de forma que acaba por funcionar como sintoma de uma questão mais profunda: a erosão da experiência humana. Se nossas memórias podem ser produzidas, nossos desejos mediados e nossas imagens fabricadas por máquinas – o que ainda constitui nossa identidade?
Essa reflexão atravessa também a forma como o filme é construído. O uso de imagens geradas por inteligência artificial não só aparece como tema, mas também como linguagem. Em vez de esconder suas imperfeições ou tentar competir com o realismo, Pretto assume justamente o aspecto artificial dessas imagens. Elas causam estranhamento porque nunca convencem completamente, permanecem suspensas entre o familiar e o falso, transformando essa sensação de desconforto em parte da própria dramaturgia. É um dos raros casos em que a IA não surge como um atalho estético, mas como um recurso coerente com o que o filme deseja discutir.
Também chama atenção a maneira como o diretor constrói sua distopia sem recorrer ao espetáculo. Não há grandes sequências de destruição nem eventos apocalípticos destinados a impressionar. O colapso já aconteceu — ou talvez continue acontecendo todos os dias. As pessoas seguem trabalhando, negociando, criando vínculos afetivos e tentando sobreviver. Existe algo profundamente brasileiro nessa escolha. Em um país acostumado a conviver com tragédias sucessivas, crises ambientais, desigualdade estrutural e instabilidade política, o fim do mundo dificilmente chega como um evento único, costumando a ser incorporado à rotina.
Essa percepção se estende à própria organização do espaço. A cidade dividida entre ricos e pobres espelha a realidade dos bairros privativos, em ascenção na cidade de Porto Alegre e não serve apenas como comentário sobre desigualdade econômica. São modos distintos de existir. De um lado, corpos, desgaste, textura e escassez. Do outro, uma perfeição quase asséptica, construída por imagens artificiais que parecem incapazes de produzir qualquer experiência verdadeira. Curiosamente, nenhum desses mundos oferece uma promessa de felicidade – carregam uma sensação constante de esvaziamento.
Diante de tantos questionamentos propostos, uma das características fortes do filme é a habilidade de Davi Pretto de confiar na inteligência do espectador, não explicar tudo e aceitar que algumas imagens permaneçam abertas, ainda que, em certos momentos, essa opção cobre seu preço. O filme acumula símbolos — o polvo, os dispositivos, as visões, os sonhos, a água, os drones — que nem sempre estabelecem relações dramáticas entre si. Há instantes em que a potência das ideias supera a progressão emocional da narrativa, fazendo com que a experiência se torne mais cerebral do que afetiva. Não chega a comprometer o fluxo, mas insere um distanciamento que poderia ser evitado.
Ainda assim, a ambição formal de Futuro Futuro é louvável. Davi Pretto realiza uma ficção científica que não tenta reproduzir modelos estrangeiros nem transformar tecnologia em espetáculo. Sua preocupação é outra: investigar como a tecnologia altera nossa maneira de lembrar, desejar e existir. No fundo, o filme não pergunta o que a inteligência artificial fará conosco e sim, o que acontecerá quando aceitarmos terceirizar justamente aquilo que nos torna humanos.
O filme propõe uma reflexão tão inteligente quanto sutil acerca dos possíveis futuros que nos aguardam e questiona o imaginário que construímos sobre eles — um imaginário alimentado, em grande parte, por filmes hollywoodianos de colapsos grandiosos e incontroláveis. Enquanto passamos nossos dias esperando meteoros, invasões alienígenas ou máquinas que tomem o controle do mundo, talvez o nosso próprio colapso já tenha começado de forma muito mais silenciosa. Não como um grande evento, mas como um processo gradual em que terceirizamos nossas memórias, nossos afetos e até a forma como experimentamos a realidade. Porque não há nada mais aterrorizante do que uma distopia que deixa de parecer ficção para se tornar reconhecível.
Confira abaixo a entrevista que fizemos com o cineasta:
A Odisseia de Nolan: um espetáculo monumental à procura de uma alma
Adaptar A Odisseia talvez seja um dos maiores desafios que um cineasta possa assumir. Não apenas porque Homero escreveu um dos textos fundadores da literatura ocidental, mas porque sua obra parece resistir à própria ideia de adaptação. Ao longo de quase três mil anos, a jornada de Odisseu atravessou culturas, religiões e linguagens sem nunca perder sua força. Isso acontece porque A Odisseia nunca foi realmente sobre monstros, deuses ou criaturas fantásticas. O mito sempre foi apenas a linguagem escolhida por Homero para falar daquilo que existe de mais profundamente humano: culpa, desejo, orgulho, tempo, perda e identidade. No fundo, sua epopeia é a história de um homem tentando voltar para casa — e, principalmente, tentando voltar para si mesmo.
O CONVITE – dir. Olivia Wilde
Existe um prazer muito específico em assistir alguém dominar uma lógica que nos escapa. A gente não entende exatamente como aquilo funciona, mas reconhece, quase intuitivamente, a precisão de cada movimento.É como assistir à final de uma competição de cubo mágico sem entender absolutamente nada sobre cubos mágicos. Você não conhece a lógica, técnica, não faz ideia de qual será o próximo movimento e ainda assim, permanece completamente hipnotizado – não pela resposta, mas pelo processo, pela inteligência escondida em cada gesto. Pela sensação de que qualquer pequena peça fora do lugar faria tudo desmoronar.É exatamente assim que Olivia Wilde conduz O Convite.
ANATOMIA DO CAOS
A memória nunca é apenas um exercício de recordação. Ela também é um campo de disputa. O que uma sociedade decide preservar, esquecer ou relativizar determina não apenas a forma como ela compreende o passado, mas também as escolhas que fará no futuro. **Anatomia do Caos**, novo documentário de Dandara Ferreira, parte dessa compreensão ao transformar os bastidores da CPI da Covid em um registro sobre um dos períodos mais decisivos da história recente do Brasil.