ENTRE O SUCESSO E A LAMA – Dir. Cristiano Burlan

21/06/2026

ENTRE O SUCESSO E A LAMA – Dir. Cristiano Burlan

Autoria

Lilianna Bernartt

Tempo de Leitura

6 min

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Filme de Cristiano Burlan transforma resistência cultural em cinema

Partindo do projeto de mesmo nome idealizado pelo rapper e compositor brasileiro Edi Rock (Racionais MC’s) e fomentado pela deputada federal Lucilene Cavalcante, o documentário acompanha um grupo de 16 artistas periféricos em um processo de formação, criação e produção musical que encontra no Teatro de Contêiner (Cia Mugunzá/SP) um espaço de acolhimento, escuta e transformação. Mas o que poderia ser apenas um filme sobre música e capacitação artística se revela algo muito maior: um retrato sobre permanência, pertencimento e disputa da cidade.

Ao longo do documentário, Burlan acompanha não apenas a construção das músicas e das trajetórias daqueles participantes, mas também o avanço de um processo que se tornou símbolo das contradições urbanas de São Paulo. O Teatro de Contêiner, espaço criado pela Cia. Mugunzá e responsável por abrigar inúmeras iniciativas culturais voltadas à população em situação de vulnerabilidade, aparece no filme como um organismo vivo. Um lugar onde arte e política não estão separadas. Um lugar onde a cultura produz impacto concreto.

Não por acaso, o filme é atravessado pela presença de artistas que ajudaram a construir a história do rap e hip hop brasileiro. Figuras como Edi Rock e Gaspar Z’África (co-fundador do Z’África Brasil) surgem não apenas como referências simbólicas, mas como agentes ativos de um processo que compreende a cultura como ferramenta de emancipação. Há uma coerência bonita nisso: artistas que transformaram suas próprias trajetórias por meio da arte agora ajudam a abrir caminhos para uma nova geração. O documentário registra esse encontro sem hierarquias, revelando a transmissão de experiências, saberes e possibilidades de futuro.

Por isso, quando o teatro é demolido pela Prefeitura de São Paulo em março de 2026, a perda registrada pelo filme ultrapassa a dimensão arquitetônica. O que desaparece não é apenas uma estrutura física. É uma rede de afetos, oportunidades e encontros. Burlan compreende isso e evita transformar o acontecimento em mera denúncia. O que lhe interessa é mostrar aquilo que existia ali, que não cabe em números, relatórios ou discursos oficiais.

A escolha é muito coerente. Ao longo de sua filmografia, Cristiano Burlan sempre demonstrou interesse pelos sujeitos que costumam permanecer à margem das narrativas dominantes. Seus filmes frequentemente investigam memórias, violências e desigualdades sem perder de vista a humanidade daqueles que atravessam esses processos. Em Entre o Sucesso e a Lama, essa pesquisa encontra uma forma particularmente potente porque a arte deixa de ser apenas tema e se torna método de transformação.

Talvez o momento mais emocionante do projeto esteja justamente fora da tela. Tive a oportunidade de acompanhar um show realizado pelos participantes do documentário na Casa de Francisca (SP) após a exibição do filme durante o Festival In-Edit. Depois de acompanhar suas histórias e processos ao longo do filme, vê-los apresentando suas próprias composições foi testemunhar algo que o documentário já vinha sugerindo: a arte produz consequências reais.

Ali estavam pessoas que não apenas participaram de uma oficina ou integraram um projeto social, mas que construíram uma voz. Haviam transformado experiências em música, memória em criação e presença em discurso. O palco se tornou uma espécie de continuação do documentário, como se o filme escapasse da tela para provar que aqueles processos não terminam nos créditos finais.

É justamente nesse encontro entre cinema e realidade que Entre o Sucesso e a Lama encontra sua maior força. Burlan não está interessado em fabricar histórias de superação fáceis nem romantizar a precariedade. Seu filme compreende que a arte não resolve sozinha as desigualdades estruturais que atravessam essas vidas, mas também entende algo fundamental: sem cultura, as possibilidades de futuro se tornam ainda menores.

Ao registrar o nascimento dessas canções enquanto acompanha o desaparecimento de um espaço cultural tão importante para a cidade de São Paulo, o documentário constrói uma imagem poderosa do nosso tempo. De um lado, a especulação imobiliária avançando sobre territórios de convivência. Do outro, pessoas insistindo em criar, cantar e ocupar espaços mesmo diante da constante ameaça de apagamento.

Entre o sucesso e a lama, como sugere o título, existe um território de disputa. Cristiano Burlan encontra esse território e o transforma em cinema. Ao assistir ao filme e, depois, ver aqueles artistas ocupando o palco da Casa de Francisca com músicas nascidas durante o próprio projeto, se torna impossível não refletir acerca da distância entre discurso e prática.

Falamos muito sobre o poder transformador da arte, mas raramente temos a oportunidade de enxergar essa transformação acontecendo diante dos nossos olhos. Entre o Sucesso e a Lama faz exatamente isso. Não porque romantiza a cultura como solução para todos os problemas, mas porque evidencia algo mais concreto e talvez mais importante: quando existe investimento, espaço, escuta e oportunidade, a arte produz pertencimento, autonomia e futuro.

O filme termina, mas aquelas vozes continuam existindo — e, para muitas delas, talvez esta tenha sido a primeira oportunidade real de serem ouvidas. E é nesse ponto que o documentário deixa de ser apenas um registro e se torna uma pequena prova da imensidão do que a cultura é capaz de construir.

Um documentário para ver, rever e compartilhar.

Confira a entrevista que fizemos com o cineasta e elenco:

Confira o teaser do filme:

Ficha Técnica

Título: Entre o Sucesso e a Lama

Ano: 2026

Direção: Cristiano Burlan

Duração: 86 min

Nota QuintaDarte: 9

Visto em: 18ª edição do In-Edit - Festival Internacional do Documentário Musical

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