“Filhas da Lua” e “Shibal” lideram os vencedores da primeira premiação do Festival de Gramado

22/08/2026

“Filhas da Lua” e “Shibal” lideram os vencedores da primeira premiação do Festival de Gramado

Autoria

Lilianna Bernartt

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9 min

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Festivais, Filmes, Nacional (+)

Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

O 54º Festival de Cinema de Gramado começou a desenhar seu mapa de vencedores celebrando filmes que transformam diferentes realidades brasileiras em cinema. Na primeira grande noite de premiação, “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager, confirmou sua força ao conquistar júri técnico e popular entre os longas gaúchos, enquanto “씨발 (Shibal)”, de João Rubio Rubinato, levou o principal Kikito da competição nacional de curtas. Entre afetos, urgências sociais, experimentações de linguagem e olhares que partem das margens para ocupar o centro da tela, a cerimônia também destacou títulos como “Pão Doce” (Wesley Gabriel), “Revelação” (Gabriela Gaia), “Mulher Papaya” (Camila Tarifa) numa noite que revelou a potência e a pluralidade do cinema que chega a Gramado de diferentes cantos do país.

Entre os longas gaúchos, “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager, foi o grande vencedor, conquistando o Kikito de Melhor Longa-Metragem Gaúcho, o Prêmio do Júri Popular e o prêmio de Melhor Montagem, para Gabriel Sager Rodrigues. Já entre os curtas brasileiros, “씨발 (Shibal)”, de João Rubio Rubinato, foi eleito Melhor Filme, enquanto produções como “Pão Doce”, “Revelação”, “Mulher Papaya” e “Divino: Sua Alma, Sua Lente” também saíram de Gramado com importantes reconhecimentos.

“Filhas da Lua”: três prêmios e a consagração entre público e júri

Equipe do filme “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager/ Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Dirigido por Tatiana Sager, “Filhas da Lua” chegou à premiação depois de encerrar as exibições da Mostra Sedac/Iecine e terminou a noite como o título mais celebrado da competição gaúcha. Além de receber o Kikito de Melhor Longa-Metragem Gaúcho pelo júri técnico, o documentário repetiu a vitória na escolha do Júri Popular e ainda conquistou Melhor Montagem para Gabriel Sager Rodrigues.

O encontro entre as duas escolhas — a do júri técnico e a do público — é especialmente significativo para um filme que coloca no centro da tela personagens historicamente empurradas para as margens. “Filhas da Lua” acompanha quatro travestis que passaram pelo sistema prisional, observando não apenas as marcas deixadas pelo cárcere, mas principalmente a tentativa de reconstrução da vida depois dele. Dara Dandara, Fabíula, Rafaella e Robby atravessam diferentes momentos entre o cumprimento da pena, a liberdade monitorada e a vida fora da prisão.

A câmera de Sager privilegia uma abordagem observativa, se aproximando do cotidiano das protagonistas para falar sobre liberdade, sobrevivência e sobre os obstáculos que continuam existindo mesmo depois que as grades ficam para trás. O longa dá continuidade ao interesse da diretora pelo universo prisional, agora deslocando o olhar para uma população ainda mais vulnerabilizada dentro e fora desse sistema.

Melhor Direção, para Hique Montanari, por “A História Mais Triste do Mundo”, de Hique Montanari/ Foto: Edison Vara/Ag.Pressphoto

A Mostra de Longas Gaúchos teve ainda outro filme fortemente reconhecido pelo júri. “A História Mais Triste do Mundo”, de Hique Montanari, conquistou seis Kikitos: Melhor Direção e Melhor Roteiro, ambos para Montanari; Melhor Ator, para Arthur Seidel; Melhor Trilha Musical, para João Vitor Costa Dias; Melhor Desenho de Som, para Gabriela Bervian; e Melhor Fotografia, para Juarez Pavelak. Já “Remanente – Voltagem”, de Kapel Furman, venceu Melhor Atriz, para Áurea Baptista, e Melhor Direção de Arte, para Tiago Retamal.

“Shibal” transforma o caos da cidade em cinema e leva o Kikito de Melhor Filme – Curta metragem

Equipe de “Shibal”, de João Rubio Rubinato/Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Na competição nacional de curtas, o principal Kikito ficou com “씨발 (Shibal)”, escrito e dirigido por João Rubio Rubinato. Filmado em 16mm e protagonizado por Tavinho Teixeira, o curta acompanha Tom, um gravurista que atravessa o Bom Retiro, em São Paulo, enquanto uma sucessão de golpes, furtos e pequenos acontecimentos transforma seu dia em uma espiral cada vez mais caótica.

Rubinato constrói a experiência a partir de um registro tragicômico e acelerado da metrópole, fazendo do acúmulo de situações uma espécie de retrato da exaustão urbana. O elenco conta ainda com Bianca Comparato, Marcelo Médici, Suk Kim, Paulo Goya, Boni Tao e Stephanie Kim. Produzido pela IPA Filmes, o curta também reafirma a pesquisa do diretor com o cinema analógico e uma filmografia marcada pelo interesse em questões sociais.

“Pão Doce”: trabalho, periferia e paternidade

Equipe de “Pão Doce”, de Wesley Gabriel/ Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Outro destaque da noite foi “Pão Doce”, de Wesley Gabriel Silva Santos, que saiu do Palácio dos Festivais com dois Kikitos: Melhor Direção, para Wesley Gabriel, e Melhor Ator, para Francisco Gaspar.

Filmado entre o Bairro dos Pimentas, em Guarulhos, e a Brasilândia, em São Paulo, o curta parte de uma situação aparentemente simples para discutir algo muito maior. Fernando tenta preservar o aniversário de seis anos da filha, Sophia, mas, obrigado a levá-la para o trabalho, precisa conciliar o cuidado paterno com uma rotina profissional exaustiva. A partir desse conflito, “Pão Doce” discute a precarização e a desumanização das jornadas de trabalho enfrentadas por quem vive nas periferias das grandes cidades.

O filme também carrega uma relação direta com o território onde foi realizado. Wesley Gabriel desenvolve há anos trabalhos ligados ao cinema e à educação no bairro dos Pimentas e é fundador dos coletivos Olhares do Território e Kinoférico. “Pão Doce” foi realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo de Guarulhos e reúne no elenco, além de Francisco Gaspar, Vinicius de Oliveira, Céllia Nascimento, Timm Arif, Paulo Coveiro, Sofia Furtado e Murilo Amaral.

“Revelação” conquista dois prêmios

Equipe de “Revelação”, de Gabriela Gaia/ Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

“Revelação”, de Gabriela I. Gaia, também deixou Gramado duplamente premiado: recebeu o Prêmio Especial do Júri e o Prêmio Canal Brasil de Curtas.

Em sua estreia solo na direção, Gaia parte de uma festa de família e de cinco personagens colocados diante de uma câmera para construir uma comédia que atravessa identidade, raça, gênero e pertencimento. O curta encerra a chamada “Trilogia do Encontro”, iniciada com “Afeto”, em 2019, e seguida por “Escasso”, em 2022, conjunto no qual a realizadora investiga as fronteiras entre ficção e documentário e a própria presença da câmera dentro das relações que registra.

Coprodução entre Brasil e França, “Revelação” tem elenco e equipe formados majoritariamente por artistas queer, racializados e periféricos e reúne Lorre Motta, Stella Rabello, Heloísa Pires, Natália Balbino e João Mabial. A passagem por Gramado teve peso adicional por representar a estreia mundial do filme.

Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Entre os demais curtas premiados, “Mulher Papaya”, de Camila Tarifa, conquistou Melhor Roteiro e foi escolhido Melhor Filme pelo Júri da Crítica. “Divino: Sua Alma, Sua Lente”, de Clea Torres e Gilson Costa, com codireção de Divino Tserewahú, venceu Melhor Montagem, para Gilson Costa e Thamires Coelho, e foi o escolhido do Júri Popular.

A cerimônia também abriu espaço para reconhecer trajetórias do audiovisual do Rio Grande do Sul. A atriz e produtora cultural Silvia Duarte recebeu o Prêmio Leonardo Machado, enquanto os Prêmios Iecine foram entregues a Renato Dornelles e Tatiana Sager, na categoria Destaque; Márcio Reolon e Filipe Matzembacher, em Inovação; e à produtora Gisele Hiltl, na categoria Legado.

Confira todos os vencedores

Mostra Competitiva Sedac/Iecine de Longas-Metragens Gaúchos

Melhor Filme: “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager
Melhor Direção: Hique Montanari, por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor Atriz: Áurea Baptista, por “Remanente – Voltagem”
Melhor Ator: Arthur Seidel, por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor Roteiro: Hique Montanari, por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor Fotografia: Juarez Pavelak, por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor Direção de Arte: Tiago Retamal, por “Remanente – Voltagem”
Melhor Montagem: Gabriel Sager Rodrigues, por “Filhas da Lua”
Melhor Desenho de Som: Gabriela Bervian, por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor Trilha Musical: João Vitor Costa Dias, por “A História Mais Triste do Mundo”
Júri Popular: “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager

Mostra Competitiva de Curtas-Metragens Brasileiros

Melhor Filme: “씨발 (Shibal)”, de João Rubio Rubinato
Melhor Direção: Wesley Gabriel Silva Santos, por “Pão Doce”
Melhor Ator: Francisco Gaspar, por “Pão Doce”
Melhor Atriz: Chris Couto, por “Um Passeio”
Melhor Roteiro: Camila Tarifa, por “Mulher Papaya”
Melhor Fotografia: Felipe Ovelha, por “Pique-Pega”
Melhor Montagem: Gilson Costa e Thamires Coelho, por “Divino: Sua Alma, Sua Lente”
Melhor Trilha Musical: Ângelo de Souza, por “Graxa e o Zepelim”
Melhor Direção de Arte: Jackson Abacatu, por “A Menina que Queria Ser Pedra”
Melhor Desenho de Som: Marcos Lopes, por “Fúrias”
Melhor Filme pelo Júri da Crítica: “Mulher Papaya”, de Camila Tarifa
Prêmio Especial do Júri: “Revelação”, de Gabriela I. Gaia
Prêmio Canal Brasil de Curtas: “Revelação”, de Gabriela I. Gaia
Júri Popular: “Divino: Sua Alma, Sua Lente”, de Clea Torres e Gilson Costa, com codireção de Divino Tserewahú

Prêmios especiais do cinema gaúcho

Prêmio Leonardo Machado: Silvia Duarte
Prêmio Iecine – Destaque: Renato Dornelles e Tatiana Sager
Prêmio Iecine – Inovação: Márcio Reolon e Filipe Matzembacher
Prêmio Iecine – Legado: Gisele Hiltl

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